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terça-feira, 30 de março de 2010 Texto de

O Se­nado já man­dou para Ara­pi­raca, em Ala­goas, in­te­gran­tes de sua CPI (Co­mis­são Par­la­men­tar de Inqué­rito) que vai in­ves­ti­gar a ban­da­lheira dos pa­dres acu­sa­dos de pe­do­fi­lia.

Não sei se vo­cês vi­ram o pro­grama do Ca­brini, no SBT, que foi quem de­nun­ciou o caso (para quem per­deu, está tudo no you­tube, claro). Se não fosse trá­gico, se­ria cô­mico. As ce­nas apre­sen­ta­das no “Co­ne­xão Re­pór­ter” são ao mesmo tempo ver­go­nha (por ter pa­dres me­ti­dos – li­te­ral­mente – nesse tipo de de­nún­cia) e es­cár­nio (pe­las re­a­ções dos de­nun­ci­a­dos).

Abu­sar se­xu­al­mente de cri­ança ou ado­les­cente, crime de di­ver­sas fa­ce­tas que mui­tas ve­zes en­volve o pró­prio nú­cleo fa­mi­liar, transforma-se em algo ainda mais ater­ra­dor quando emerge do seio da cha­mada santa igreja. É ali que tal­vez a mai­o­ria da so­ci­e­dade, con­ser­va­dora ou pro­gres­sista, acre­dita, de modo ex­plí­cito ou mesmo sub­cons­ci­en­te­mente, ha­ver ao me­nos uma re­ser­vi­nha mo­ral.

Um de­ta­lhe que achei des­ne­ces­sá­rio no fim do pro­grama do Ca­brini foi ele ter dito que esse tipo de coisa man­cha a dig­ni­dade dos pa­dres que hon­ram a ba­tina. Não me lem­bro se foi com es­sas pa­la­vras, mas o sen­tido foi esse. As­sim como jor­na­lis­tas sa­fa­dos man­cham a dig­ni­dade da­que­les pro­fis­si­o­nais que pro­cu­ram ser éti­cos. As­sim como um pe­dreiro re­la­xado passa a im­pres­são de que to­dos são. E por aí vai. Ape­sar que, pen­sando bem, eu mesmo, em co­men­tá­rios na TV, já pro­cu­rei usar esse re­curso. É uma es­pé­cie de re­cado ao pú­blico para que evi­te­mos sem­pre co­me­ter o pe­cado da ge­ne­ra­li­za­ção.

Agora, cá en­tre nós, mesmo com as cha­mas do pe­cado cre­pi­tando em nossa cons­ci­ên­cia, não é fá­cil ima­gi­nar que há no Se­nado uma re­ser­vi­nha mo­ral, hein?

Igreja

Na mi­nha in­fân­cia, lembro-me de um pa­dre muito aus­tero cujo com­por­ta­mento pro­vo­cava no re­ba­nho sen­ti­men­tos do tipo amor e ódio. 

Ele, aliás, dava au­las de re­li­gião na es­cola pú­blica que eu fre­quen­tava e todo mundo fi­cava es­perto por­que o su­jeito não era flor que se chei­rasse com o giz à mão. Sua pon­ta­ria era ótima. 

Mas o caso é que lá fora (e tam­bém en­tre nós) o bur­bu­ri­nho so­bre seus ca­sos (com mu­lhe­res) cir­cu­lava por to­dos os can­tos do re­ba­nho. Nunca algo mais pal­pá­vel (rs­sss) che­gou ao co­nhe­ci­mento do es­ta­blish­ment. E o pa­dre, quando dei­xou a ci­dade, saiu ileso. Não man­chou a dig­ni­dade da­que­les que hon­ram a ba­tina (Ah!Ah!Ah!).

De­ta­lhe: na­quele tempo, acho que não ha­via pa­dre pe­dó­filo. Por­que não se fa­lava disso (Ah!Ah!Ah! ou­tra vez).

His­to­ri­nha de medo (Rs­sss)

Eu ra­ra­mente fre­quen­tava a igreja, em­bora ti­vesse feito a pri­meira co­mu­nhão (mi­nha mãe era foda! Rs­s­sss). Na es­cola, eu ti­nha aula de re­li­gião uma vez por se­mana, e as­sim mesmo era “ape­nas” uma aula mesmo (na época, 45 mi­nu­tos). Eu nunca fui ne­nhum gê­nio, ne­nhum aluno acima da mé­dia, em­bora eu te­nha re­ce­bido da mi­nha pro­fes­sora de ter­ceiro ano, que eu amava (de ver­dade! Rs­s­sss), um li­vri­nho (“Ala­dim e a lâm­pada ma­ra­vihosa”, que eu ainda te­nho co­migo) como prê­mio por ter ti­rado a me­lhor mé­dia fi­nal do ter­ceiro ano. Bem, mas aqui es­tou fa­lando da aula de re­li­gião que tí­nha­mos na quinta sé­rie. Pois bem, eu fi­cava lá no meu canto, qui­eto. Ou seja, meu con­tato com o pa­dre era o mais su­per­fi­cial pos­sí­vel (tam­bém nunca fui co­roi­nha. Rs­s­sss). Isso foi em 1975! Puxa, sem co­men­tá­rios. Em 1985, dez anos de­pois, eu já era um ho­mem. Ti­nha 21 anos, e não os 11 anos de 1975. Eu ha­via mu­dado. Mas não é que, numa ma­dru­gada, en­quanto eu aguar­dava num posto de beira de es­trada um mal­dito ôni­bus que ti­vesse uma va­gui­nha pra me le­var de volta da fa­cul­dade até mi­nha ci­dade, o dito cujo me apa­rece? As­sim, do nada! Acho que es­tava em al­gum da­que­les ôni­bus es­ta­ci­o­na­dos ao lado do posto. Eu o re­co­nheci, claro. Mas o que eu ja­mais po­de­ria es­pe­rar era que ele vi­esse até mim e me cha­masse pelo so­bre­nome! É isso aí. Isso é que é pa­dre (Rs­s­s­sss).

Cruz

A ima­gem (acima) que es­co­lhi para ilus­trar a cha­mada na pá­gina prin­ci­pal do meu site é do filme es­pa­nhol “La cruz del di­a­blo”, que no Bra­sil está dis­po­ní­vel (não sei onde… ah!ah!ah!) em VHS sob o tí­tulo de “A cruz do di­abo”. É uma obra ba­se­ada num conto do es­cri­tor, tam­bém es­pa­nhol, Gus­tavo Adolfo Bec­quer (1836-1870). Ele é tido por mui­tos como o Ed­gar Al­lan Poe es­pa­nhol. En­fim, não as­siti ao filme e di­zem que é uma por­ca­ria. Mas como es­co­lhi a ima­gem, senti a obri­ga­ção de contextualizá-la. 

De­ta­lhe: esse filme – a fi­cha caiu agora, juro! – é de 1975! (mesmo ano que eu ti­nha au­las de re­li­gião com o tal pa­dre).

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