Crônicas, Impressões

Relação

domingo, 7 de fevereiro de 2010 Texto de

Os ani­mais são im­pres­si­o­nan­tes. On­tem, nossa ca­chor­ri­nha (que car­rega um pro­blema sé­rio na co­luna e de vez em quando tem umas re­caí­das) não es­tava muito bem. À tar­de­zi­nha, de­ci­di­mos nos fa­zer com­pa­nhia, am­bos dei­ta­dos no ta­pete do es­cri­tó­rio. Brin­ca­mos, tro­ca­mos ideias e co­chi­la­mos. Uma te­ra­pia – acho que para os dois. 

Quando eu era cri­ança, tí­nha­mos uma gata em casa. To­das as noi­tes, mi­nu­tos an­tes de meu pai che­gar da rua, ela, por al­gum mo­tivo que eu nunca soube pre­ci­sar, postava-se so­bre o muro do quin­tal, certa de que dali a pouco ele che­ga­ria. E quando che­gava, ela ime­di­a­ta­mente cor­ria para den­tro do carro. Meu pai le­vava sem­pre uma pe­quena pasta preta, fe­chada por um zí­per, onde ele guar­dava do­cu­men­tos, che­ques e ou­tros pa­péis. Era lá, den­tro da pasta, que ele a en­fi­ava, dei­xando só a ca­beça de fora, levando-a em­baixo do braço, para con­ten­ta­mento de am­bos.

Ainda na­quela época, ti­ve­mos tam­bém, en­tre vá­rios ou­tros ca­chor­ros, um vira-lata preto, bem pe­queno. Meu pai gos­tava de pes­car. E ele tam­bém. Numa des­sas pes­ca­rias, o ani­mal­zi­nho besta cra­vou um an­zol na lín­gua ao ten­tar co­mer uma isca. Foi ope­rado com um ca­ni­vete pelo dono na beira do rio. Vi­veu, dali em di­ante, sem um quarto da lín­gua. Mas mesmo as­sim, fi­cava do­ente quando não era le­vado para pes­car.

Cer­ta­mente to­dos que con­vi­vem com ani­mais têm mui­tas his­tó­rias para con­tar so­bre a re­la­ção mis­te­ri­osa en­tre es­ses bi­chos di­fe­ren­tes mas que se en­ten­dem per­fei­ta­mente. Numa época em que o ho­mem en­con­tra sé­rias di­fi­cul­da­des para con­vi­ver com seus se­me­lhan­tes, ao me­nos resta-lhe o con­solo – ou a ilu­mi­na­ção – de manter-se na boa com­pa­nhia des­ses ani­mais ex­tra­or­di­ná­rios.

A li­te­ra­tura e o ci­nema são fon­tes ines­go­tá­veis de exem­plos. Aliás, nos úl­ti­mos anos a fic­ção pa­rece ter in­ten­si­fi­cado sua pre­sença den­tro dessa cu­ri­osa re­la­ção. Mas mi­nha dica hoje vai para um conto es­crito há mais de 120 anos pelo russo Tche­kov: “An­gús­tia”. Nada di­rei. Leiam!

Mi­nha co­ta­ção: ma­ra­vi­lhoso

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