Impressões

Literatura

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010 Texto de

Os gran­des veí­cu­los de co­mu­ni­ca­ção – prin­ci­pal­mente os jor­nais, onde a li­te­ra­tura se en­caixa bem – cos­tu­mam dar pouco es­paço aos cha­ma­dos no­vos au­to­res. Não sei se isso é re­flexo do com­por­ta­mento do pú­blico ou se o pú­blico re­flete a pos­tura dos jor­nais.

Exem­plo: Le­o­nardo Bra­si­li­ense é um es­cri­tor gaú­cho que já fa­tu­rou um prê­mio Ja­buti, o mais im­por­tante da li­te­ra­tura na­ci­o­nal. Foi com o li­vro “Adeus conto de fa­das” (Edi­tora 7 Le­tras – 2006), di­ri­gido ao pú­blico infanto-juvenil. Fora essa obra, Le­o­nardo tem vá­rias ou­tras pu­bli­ca­das. Mas não o vejo nas pá­gi­nas de li­te­ra­tura dos jor­nais.

Cli­que aqui para aces­sar o site dele

Agora, Le­o­nardo lança mais um li­vro: “Wha­te­ver” (Edi­tora Ar­tes e Ofí­cios, de Porto Ale­gre). São dez con­tos em 128 pá­gi­nas. A nar­ra­ção é feita por um jo­vem (João Pe­dro) de classe mé­dia que não vê mais sen­tido na vida. Ainda não li por­que não o en­con­trei nas li­vra­rias do in­te­rior de São Paulo, mas vou comprá-lo pela in­ter­net ou na ci­dade de São Paulo. 

Se eu co­nheço ra­zo­a­vel­mente (pe­los ou­tros li­vros) a sen­si­bi­li­dade e a ca­pa­ci­dade de en­vol­ver o lei­tor de Le­o­nardo, esta será, sem dú­vida, mais uma be­lís­sima obra.

Para quem qui­ser um ape­ri­tivo, pu­blico aqui um pe­queno tre­cho:

Bons tem­pos
Era di­fí­cil o tempo todo.
Mas acor­dar cedo nunca me in­co­mo­dou, eu dor­mia bem. Vi
num do­cu­men­tá­rio na TV que a gente so­nha quando o sono é su­per­fi­cial, no sono pro­fundo não há so­nhos. En­tão era por isso que eu dor­mia bem, por­que nunca so­nhava. Sem­pre ria quando ou­via as pes­soas di­zendo que “te­mos que per­se­guir nos­sos so­nhos e torná- los re­a­li­dade”. A mi­nha re­a­li­dade era que eu não so­nhava.
De­pois di­zem que a gente só vê bo­ba­gens na te­le­vi­são.
Sim, eu sei, eles fa­lam “so­nho” em ou­tro sen­tido. Tudo bem. Mas eu não so­nhava. E se so­nhasse, não se­ria mais fá­cil. Acho que se­ria até mais di­fí­cil. Mi­nha vida era mesmo uma flor.(1)
Quando era mais novo, ti­nha a sen­sa­ção de que se ti­vesse
nas­cido em ou­tro lu­gar, com tudo di­fe­rente desde o iní­cio, eu não sen­ti­ria esse va­zio. Daí acon­te­ceu al­guma coisa, não lem­bro quando nem o que foi, mas acon­te­ceu al­guma coisa que me fez pen­sar…

(1) Por ra­zões edi­to­ri­ais, não se es­creve pa­la­vrão em li­vro ju­ve­nil, em­bora você lei­tor co­nheça to­dos desde cri­an­ci­nha. As­sim, toda vez que apa­re­cer a pa­la­vra “flor”, en­tenda ali o pa­la­vrão mais ade­quado à si­tu­a­ção. Mal­di­tos tem­pos do
“po­li­ti­ca­mente cor­reto”!

Res­pon­sa­bi­li­dade

Está no Por­tal Im­prensa: “A de­fesa de Su­zane Von Ri­chtho­fen, con­de­nada a 39 anos pelo as­sas­si­nato dos pais, en­trou com ação por da­nos mo­rais na 2ª Vara Cí­vel de São Paulo con­tra a Edi­tora Três, res­pon­sá­vel pela re­vista Is­toÉ. O ad­vo­gado de Su­zane, De­ni­valdo Barni, con­testa re­por­ta­gem pu­bli­cada pelo se­ma­ná­rio em 2006.” (Para ver a ma­té­ria com­pleta no Por­tal Im­prensa, cli­que aqui). 

Claro que não sei quem está com a ra­zão nesse caso es­pe­cí­fico. A Jus­tiça é que dirá. Mas nem é essa a ques­tão. Só cito o caso aqui por­que me lem­bro de fa­zer o se­guinte co­men­tá­rio:

Fre­quen­te­mente veí­cu­los de im­prensa e jor­na­lis­tas são le­va­dos à Jus­tiça por pes­soas que se jul­gam ví­ti­mas das pu­bli­ca­ções. É um di­reito do ci­da­dão. E tam­bém um alerta para to­dos que tra­ba­lham com jor­na­lismo. O equi­lí­brio, o senso de res­pon­sa­bi­li­dade e os cui­da­dos com os no­mes (se­jam pes­soas, ins­ti­tui­ções, em­pre­sas etc etc) en­vol­vi­dos de­vem es­tar sem­pre acima de qual­quer pro­jeto jor­na­lís­tico e de qual­quer es­tilo ou per­fil de quem es­creve.

Há mui­tos exem­plos de ca­sos em que nada era o que pa­re­cia ser. Não é di­fí­cil veí­cu­los e pro­fis­si­o­nais avan­ça­rem o si­nal em nome do furo, da no­tí­cia vi­brante, da ou­sa­dia e por aí vai. Uma no­tí­cia ou uma opi­nião bem fun­da­men­tada e cui­da­dosa tam­bém pode ser ou­sada e vi­brante. De nada adi­anta cau­sar fu­ror hoje e ver tudo en­la­me­ado ama­nhã. Prin­ci­pal­mente por­que a lama jo­gada so­bre en­vol­vi­dos ino­cen­tes di­fi­cil­mente po­derá ser to­tal­mente re­ti­rada um dia. 

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