Impressões

Épico

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010 Texto de

O ro­man­cista e po­eta russo Bo­ris Pas­ter­nak é pro­ta­go­nista de uma das mais be­las e im­pres­si­o­nan­tes his­tó­rias da li­te­ra­tura mun­dial. Ele es­cre­veu “Dou­tor Ji­vago” en­tre 1945 e 1955, mas o ro­mance che­ga­ria ao pú­blico ini­ci­al­mente em ita­li­ano e, claro, fora da an­tiga União So­vié­tica, cu­jos bam­bam­bans só per­mi­ti­ram a pu­bli­ca­ção do li­vro em 1989! Sim­ples­mente 34 anos de­pois de sua con­clu­são.

Aliás, um ano após a pu­bli­ca­ção em ita­li­ano – feita con­tra a von­tade do au­tor -, Pas­ter­nak ga­nha­ria o Prê­mio No­bel de Li­te­ra­tura, ao qual foi obri­gado a re­nun­ciar por causa da pres­são do go­verno so­vié­tico. A pri­meira edi­ção russa de “Dou­tor Ji­vago” só saiu em 1958: uma ver­são pi­rata na Ho­landa.

Quem gosta de ci­nema já deve ter visto a adap­ta­ção da obra para a te­lona, com Omar Sha­rif, Ju­lie Ch­ris­tie e Alec Gui­ness. A di­re­ção é do len­dá­rio Da­vid Lean. 

Eu gosto do filme, mas a com­pa­ra­ção com o li­vro acaba sendo ine­vi­tá­vel, o que é, di­ga­mos, uma co­var­dia, claro. “Dou­tor Ji­vago”, o li­vro, é uma das mais pro­fun­das obras dos pro­fun­dos au­to­res rus­sos.

O per­so­na­gem do tí­tulo, o mé­dico Iúri Ji­vago, cri­ado du­rante a Pri­meira Guerra Mun­dial e le­vado a vi­ver o drama da re­vo­lu­ção e da guerra ci­vil na Rús­sia, ex­põe as fe­ri­das da po­lí­tica e de suas pró­prias fra­que­zas e afir­ma­ções.

Tra­fe­gando en­tre a po­e­sia e a me­di­cina, en­tre o li­rismo e a re­a­li­dade cru­enta dos com­ba­tes, Iúri Ji­vago avança numa in­ter­mi­ná­vel luta com as ba­ta­lhas tra­va­das em seu pró­prio co­ra­ção.

Uma cu­ri­o­si­dade: a edi­ção da Best­Bolso é tra­du­zida di­re­ta­mente do russo para o por­tu­guês pela pro­fes­sora Zoia Pres­tes, fi­lha de Luiz Car­los Pres­tes e de Ma­ria Pres­tes.

Para mim, o iní­cio de “Dou­tor Ji­vago” é tam­bém um dos mais be­los da li­te­ra­tura mun­dial. Leiam o pri­meiro pa­rá­grafo, que se passa du­rante o en­terro da mãe de Iúri, quando este é ainda um me­nino:

“Ca­mi­nha­vam, ca­mi­nha­vam e can­ta­vam ‘Lem­brança Eterna’, mas quando pa­ra­vam, pa­re­cia que, de tanto ser can­tada, a mú­sica con­ti­nu­ava a ser en­to­ada pe­los pés das pes­soas, pela mar­cha dos ca­va­los e pelo so­pro do vento.”

Numa época como a de hoje, quando a ética causa tan­tas dú­vi­das di­ante de sua com­ple­xi­dade e das aná­li­ses que bus­cam aten­der às con­ve­ni­ên­cias dos la­dos en­vol­vi­dos, “Dou­tor Ji­vago” é tam­bém uma tá­bua a se ape­gar.

Mi­nhas co­ta­ções:
O li­vro, ex­tra­or­di­ná­rio
O filme, muito bom

Compartilhe