Impressões

O jornalismo na nossa sala

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012 Texto de

As emis­so­ras de te­le­vi­são con­ti­nuam in­ten­si­fi­cando a ma­neira in­for­mal de le­var as no­tí­cias à nossa casa. Os apre­sen­ta­do­res, cada dia mais pró­xi­mos do pú­blico, quase não fa­zem mais os ve­lhos re­la­tos sob a so­no­ri­dade de vo­zes gra­ves e im­pos­ta­das. Já faz um tempo, eles agora con­ver­sam como se fos­sem in­ter­lo­cu­to­res pre­sen­tes bem ao nosso lado, na sala onde fica o apa­re­lho.

A trans­for­ma­ção gra­da­tiva de certo modo acom­pa­nha os pró­prios pas­sos da hu­ma­ni­dade. A ma­neira de fa­lar, de agir, de in­te­ra­gir, a ma­neira de en­ca­rar as coi­sas, en­fim, o nosso com­por­ta­mento vai dei­xando para trás a for­ma­li­dade e ado­tando con­tor­nos es­pon­tâ­neos, re­trato de uma so­ci­e­dade que busca se mo­der­ni­zar cons­tan­te­mente por meio das no­vas tec­no­lo­gias e dos be­ne­fí­cios ge­ra­dos à co­mu­ni­ca­ção.

É uma mu­dança ine­vi­tá­vel. E boa. É mais agra­dá­vel ou­vir pes­soas que, à me­dida do pos­sí­vel, se pro­põem a di­a­lo­gar com você do que vo­zes que pa­re­cem sair de um me­ga­fone im­pes­soal que des­peja pa­la­vras para quem qui­ser ou­vir. Um sor­riso na hora certa, um co­men­tá­rio como os que fa­ze­mos em nosso co­ti­di­ano, uma per­gunta in­te­li­gente ao te­les­pec­ta­dor, tudo isso ajuda a atrair a aten­ção para a in­for­ma­ção.

Agora, con­ve­nha­mos, tam­bém nesse caso há li­mi­tes. A coisa às ve­zes beira a farra. For­çam de­mais a barra. Riem a toda hora. Fa­zem ca­ras e bo­cas. Me­tem fra­ses que pouco têm a ver com a si­tu­a­ção. On­tem ouvi um co­men­tá­rio mais ou me­nos as­sim num dos te­le­jor­nais: “Quando essa chuva vai pa­rar, hein?”. 

A per­gunta, em tom de la­mento e pre­o­cu­pa­ção, veio logo após a apre­sen­ta­ção de re­por­ta­gens so­bre os efei­tos das cheias em vá­rias ci­da­des bra­si­lei­ras, in­cluindo des­li­za­men­tos, so­ter­ra­men­tos, mor­tes etc. 

Ora, es­ta­mos na época das chu­vas! É ab­so­lu­ta­mente nor­mal que em ja­neiro de to­dos os anos a na­tu­reza des­peje água à von­tade. A per­gunta que de­ve­ria ser feita não é “Quando essa chuva vai pa­rar?”. A per­gunta é “Quando vão pa­rar de cons­truir ca­sas em en­cos­tas, em lu­ga­res ina­de­qua­dos?”. Ou “Quando os ho­mens pú­bli­cos vão pa­rar de me­ter a mão no di­nheiro des­ti­nado à pre­ven­ção das tra­gé­dias cau­sa­das pe­las tem­pes­ta­des e apli­car de modo cor­reto os re­cur­sos para que as des­gra­ças não se­jam as mes­mas to­dos os anos?”. 

O jor­na­lismo pre­cisa se cui­dar. Ma­qui­a­gem às ve­zes é bom. Mas não para a in­for­ma­ção.

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