Crônicas

Sexo e poesia em Ipanema

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012 Texto de

Num bar pró­xi­mo às on­das ge­la­das de Ipa­ne­ma. Foi on­de acon­te­ceu.

Em meio ao mo­vi­men­to cres­cen­te do iní­cio da tar­de, em meio aos pas­sos apres­sa­dos dos gar­çons, ao som das vo­zes de ve­lhi­nhos ani­ma­dos que um dia po­dem até ter to­ma­do uns por­res com Vi­ni­cius de Mo­ra­es, vi­ram-se já fe­cha­dos nu­ma re­do­ma in­cer­ta de mi­nu­tos. Ape­nas cin­co ou seis mi­nu­tos.

Ele ha­via dei­xa­do a ro­da de ami­gos pa­ra dar uma vol­ta pe­la praia. En­can­ta­do e so­li­tá­rio, pa­rou no cal­ça­dão pa­ra olhar as on­das se que­bran­do sob o sol for­te, as ilhas e os na­vi­os ao fun­do, a at­mos­fe­ra se­du­to­ra que ine­bria, Ipa­ne­ma da po­e­sia e da es­pon­ta­nei­da­de das ru­as.

- Bo­ni­to, né?

A voz es­ta­va bem ao seu la­do, en­tre tan­tas ou­tras vo­zes. De­pois de al­guns se­gun­dos, deu-se con­ta de que era com ele.

- Mui­to bo­ni­to...

O que di­zer?

A mo­ça, de saí­da de ba­nho trans­pa­ren­te co­brin­do-lhe as co­xas, fez mais du­as ou três per­gun­tas. Ele res­pon­deu.

- To­ma um cho­pe co­mi­go?

A per­gun­ta dei­xou a bo­ca de lá­bi­os gros­sos e foi se aco­mo­dar no sis­te­ma ner­vo­so do so­li­tá­rio en­can­ta­do. Quan­do viu, es­ta­vam en­tran­do num bar, pe­din­do um cho­pe. Ele, an­tes, pre­ci­sa­va ir ao ba­nhei­ro.

Foi aí que ele pas­sou pe­los pos­sí­veis ve­lhos co­nhe­ci­dos de Vi­ní­cius e pe­los gar­çons apres­sa­dos com ban­de­jas de be­bi­das e co­mi­das. Lem­brou-se de re­pen­te que es­ta­va lá: num dos bair­ros mais fa­mo­sos do mun­do.

Che­ga ao ba­nhei­ro, sen­te atrás de si a por­ta não se fe­char, per­ce­be o mo­vi­men­to su­til da ga­ro­ta pau­lis­ta­na de saí­da de ba­nho trans­pa­ren­te, as­pi­ra o chei­ro de bron­ze­a­dor que re­cen­de de seu cor­po le­ve­men­te aver­me­lha­do.

O es­pa­ço se en­cur­ta en­tre eles, a por­ta do pe­que­no ba­nhei­ro de tra­va que­bra­da ran­ge e ran­ge e ran­ge e ran­ge.

Acho que não fo­ram cin­co ou seis mi­nu­tos. Acho que fo­ram três ou qua­tro. Só os dois, fe­cha­dos na re­do­ma.

Se­rá que Vi­ni­cius to­mou cho­pe ali? Quan­do a ga­ro­ta pau­lis­ta­na de Ipa­ne­ma o dei­xou lá, lim­pan­do-se dos ves­tí­gi­os da bre­ve lou­cu­ra, foi no que ele es­te­ve pen­san­do.

Não há co­mo não pen­sar nes­sas coi­sas em Ipa­ne­ma. A qual­quer ho­ra. Em qual­quer cir­cuns­tân­cia. Ali, a re­a­li­da­de e os so­nhos pa­re­cem es­tar sem­pre pas­se­an­do de mãos da­das pe­lo cal­ça­dão, pe­las es­qui­nas, pe­los ba­res. Às ve­zes, te le­vam jun­to.

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