Crônicas

Três historinhas de chuva

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012 Texto de

1. A avó
Bas­tava soar, dis­tante, um tro­vão. Mi­nha avó não sos­se­gava mais. O dia in­teiro. Até que, en­fim, vi­esse a chuva. Man­dava co­brir os es­pe­lhos da casa, acen­dia uma vela para Santa Bár­bara so­bre a cô­moda do quarto e cha­mava a fa­mí­lia in­teira para pas­sar a tem­pes­tade ao lado dela. 

Vi­nham fi­lhos, no­ras, ne­tos. Se por acaso um raio des­pen­casse so­bre aquele te­lhado, toda sua prole es­ta­ria di­zi­mada num pis­car de olhos.

Mo­rá­va­mos no sí­tio ainda. Eu de­via ter cinco ou seis anos. Mas me lem­bro per­fei­ta­mente da­que­las tar­des (cu­ri­oso, pa­rece que na­quela época as tem­pes­ta­des sem­pre caíam à tarde) de ten­são e drama. O pa­vor a fa­zia ro­lar na cama, como um do­ente com ter­rí­veis có­li­cas. Davam-lhe água com açú­car e às ve­zes, cal­man­tes.

De onde vi­nha aquele medo in­su­por­tá­vel? Eu nunca soube. As­sim como tam­bém não sei se essa pas­sa­gem de mi­nha in­fân­cia pode ex­pli­car o aperto no co­ra­ção que sinto ao ver o ho­ri­zonte tro­ve­jar. Não é medo. Nada pa­re­cido com o que acon­te­cia com mi­nha avó. É ape­nas esse aperto no co­ra­ção. Um sen­ti­mento vi­zi­nho da me­lan­co­lia, de uma treva des­co­nhe­cida.

2. A mãe
Certa noite, eu de­via ter dez ou onze anos, lembro-me de ter le­van­tado no meio de uma tem­pes­tade. Já era ma­dru­gada. Na­quela época acho que ainda ti­nha medo desse tipo de si­tu­a­ção. Por­que na ver­dade não sei ex­pli­car o mo­tivo que me fez sair da cama e pe­ram­bu­lar a esmo pela casa. 

A ener­gia fora in­ter­rom­pida, mas eu só me dei conta disso quando, na es­cu­ri­dão da sala, to­pei com mi­nha mãe. Ela me per­gun­tou o que eu es­tava fa­zendo, an­dando as­sim no es­curo. Eu não sa­bia. En­tão, ela me le­vou de volta para o quarto.

Quando ama­nhe­ceu, a casa es­tava toda re­vi­rada. Um la­drão ha­via en­trado pe­los fun­dos, per­cor­rido os quar­tos, jo­gado rou­pas pelo chão etc etc. Nin­guém ou­viu ab­so­lu­ta­mente nada. Fico pen­sando que bem na­quela hora, quando eu e mi­nha mãe nos es­bar­ra­mos, o la­drão já po­de­ria es­tar ali. Pronto para qual­quer coisa. 

3. A mão
Nessa oca­sião, eu de­via ter já uns quinze anos. Eu e meu ir­mão fo­mos as­sis­tir ao pri­meiro filme “Sexta-feira 13”. Quanto vol­ta­mos para casa a pé, co­me­çou uma chuva leve. Mas logo houve uma ra­zoá­vel tem­pes­tade. As lu­zes, como era co­mum na­que­les tem­pos, logo pi­fa­ram.

De todo modo, che­ga­mos bem. A ener­gia não de­mo­rou a vol­tar. For­mos dor­mir. Lá pe­las tan­tas, acho que eu de­via ter dor­mido pouco tempo ainda, acor­dei com uma mão so­bre meu rosto. A mi­nha cama era bem pró­xima a de meu ir­mão. E eu logo ima­gi­nei que ele es­ti­vesse fa­zendo al­gum tipo de brin­ca­deira de mau gosto, apro­vei­tando a at­mos­fera de ter­ror dei­xada pelo filme.

Como eu es­tava dei­tado vi­rado so­bre meu lado di­reito, com a mão es­querda fiz um rá­pido mo­vi­mento para ba­ter no braço dele e aca­bar com a pa­lha­çada. Mas não ha­via qual­quer braço ali. Não era o braço dele. Era ape­nas uma mão imó­vel so­bre meu rosto.

Fui to­mado por um ins­tante de pâ­nico, que não deve ter du­rado dois se­gun­dos. Por­que quando vi que não era a mão de meu ir­mão, dei um salto in­sano ao mesmo tempo em que acendi a luz. Nisso, meu braço di­reito, com­ple­ta­mente ador­me­cido, caiu como uma pe­dra so­bre a cama. Eu ha­via dor­mido so­bre o braço. E a mão que pou­sava no meu rosto era a mi­nha mesmo.

Compartilhe