Crônicas

O sigilo de um passado que nos incomoda

quinta-feira, 23 de junho de 2011 Texto de

Aí está a Nina, ca­chor­ri­nha que tam­bém é mi­nha

Es­con­der coi­sas do nosso pas­sado (ou mesmo do pre­sente) das quais nos en­ver­go­nha­mos nos faz bem? Re­solve nos­sas in­cer­te­zas a res­peito do fu­turo? Sus­tenta nossa es­ta­bi­li­dade emo­ci­o­nal? Evita uma ex­po­si­ção pre­ju­di­cial à nossa ima­gem? A dis­cus­são em torno de do­cu­men­tos si­gi­lo­sos da his­tó­ria do país me des­per­tou para mi­nhas pró­prias de­son­ras.

Eu gos­ta­ria de es­con­der que ma­tei pas­sa­ri­nhos no ni­nho e que le­vei ca­chor­ri­nhos para jo­gar no rio. 

Que ter­mi­nei um longo na­moro de qual­quer jeito só para ir to­mar cer­veja com os ami­gos.

Que não fiz nada para com­pre­en­der me­lhor meu pai.

Que disse à mi­nha mãe que ela não ti­nha nada a ver com a mi­nha vida.

Que um dia re­cla­mei do ser­viço de um es­ta­ci­o­na­mento e disse ao cara que iria fa­zer uma ma­té­ria.

Que ju­diei dos meus pri­mos me­no­res quando cri­ança.

Que pus a culpa num co­lega da frente quando mi­nha cola para a prova do gi­ná­sio caiu no chão.

Que fui mal edu­cado com pes­soas que amo.

Que já es­condi opi­niões para não me com­pro­me­ter.

Que uma vez não dei a mão para um men­digo por­que ele es­tava sujo.

Que me fiz de bem in­for­mado para não pa­re­cer ig­no­rante.

Que já dei­xei a luz acesa para dor­mir por­que es­tava as­som­brado.

Que, por re­ceio, não dei ca­rona a uma mu­lher com cri­ança de colo na beira da ro­do­via.

Que por pouca coisa me senti in­jus­ti­çado pela vida.

Que não vi­sito ve­lhos ami­gos.

Que te­nho dado pouca aten­ção a uma ca­chor­ri­nha que tam­bém é mi­nha.

Que te­nho pre­con­cei­tos.

Eu gos­ta­ria de es­con­der tudo isso. De não con­tar a nin­guém. Mas qual o sen­tido de algo as­sim se não te­nho como es­con­der de mim mesmo? 

O Bra­sil não pode es­con­der seu pas­sado de si mesmo. E nós so­mos o Bra­sil. O Bra­sil do bem e o Bra­sil do mal.

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