Impressões

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010 Texto de

São mui­tos os fil­mes cuja trama en­volve o jor­na­lismo. Desde os len­dá­rios tipo “A mon­ta­nha dos sete abu­tres” e “Ci­da­dão Kane” até os emo­ci­o­nan­tes tipo “Os gri­tos do si­lên­cio” ou os prag­má­ti­cos tipo “O jor­nal”, tem muita coisa boa. E ruim, claro. Mas hoje mi­nha dica vai para quem gosta de ver en­car­nada no jor­na­lismo a es­pe­rança de que sem­pre é pos­sí­vel es­ta­be­le­cer cri­té­rios jus­tos na co­ber­tura da no­tí­cia.

“Boa noite e boa sorte” (o tí­tulo ori­gi­nal é: Good night, and good luck) traz um elenco por­ten­toso (Da­vid Strathairn, Ro­bert Dow­ney Jr., Frank Lan­gella, Jeff Da­ni­els, Ge­orge Clo­o­ney) para nar­rar o com­bate ti­tâ­nico en­tre Edward R. Mor­row (e sua equipe) e o se­na­dor Jo­seph Mc­Carthy. Na re­a­li­dade, Mor­row, um dos gran­des no­mes do jor­na­lismo mun­dial, co­me­çou a se des­ta­car com trans­mis­sões de rá­dio du­rante a Se­gunda Guerra Mun­dial. Ele era ou­vido por mi­lhões de ci­da­dãos ame­ri­ca­nos.

De­pois, foi um dos pi­o­nei­ros da te­le­vi­são dos EUA e um dos gran­des res­pon­sá­veis pela de­ca­dên­cia do ma­carthismo (termo re­fe­rente ao se­na­dor Mc­Carthy e à sua im­pla­cá­vel per­se­gui­ção aos su­pos­tos co­mu­nis­tas). É aí que en­tra o filme, di­ri­gido por Ge­orge Clo­o­ney. Mos­tra a luta de Mor­row para que seu te­le­jor­nal possa le­var ao ar os dois la­dos da no­tí­cia, como manda o bom jor­na­lismo. A pres­são do lado oposto será ine­vi­tá­vel. Jor­na­lis­tas, es­tu­dan­tes de jor­na­lismo e sim­pa­ti­zan­tes (rrsss) são obri­ga­dos (rs­sss ou­tra vez) a as­sis­tir. Mas é filme para to­dos que ainda acre­di­tam na ética e no ho­mem.

Mi­nha co­ta­ção: ótimo.

Fo­re­ver

O co­men­tá­rio abaixo eu fiz para a TV TEM há um bom tempo, tal­vez uns dois anos. Por que será que ele não perde a atu­a­li­dade? Ve­jam (está tudo em caixa alta – le­tra maiús­cula – por­que é as­sim que es­cre­ve­mos na te­le­vi­são):

DENÚNCIAS, DENÚNCIAS, DENÚNCIAS.// CORRUPÇÃO, CORRUPÇÃO, CORRUPÇÃO.// E TODO MUNDO LIVRE, AMÉM.// ATÉ QUANDO VAMOS REZAR ESSE TERÇO?// ATÉ QUANDO VAMOS SUPORTAR ESSA FARRA COM NOSSO DINHEIRO?// ESSA SACANAGEM NA NOSSA CARA?// ESSA BANDIDAGEM À NOSSA VOLTA?// O PIOR DE TUDO NÃO SÃO ELES – MENSALEIROS, SANGUESSUGAS, NAVALHEIROS OU TANTOS OUTROS.// NÃO É A CORRUPÇÃO DELES, NÃO É A CARA DE PAU DELES, NÃO É A IMPUNIDADE DELES!// NÃO, O PIOR DE TUDO NÃO É NADA DISSO.// O QUE DÓI MESMO É VER QUE ESSAS COISAS VÃO ACONTECENDO, VÃO ACONTECENDO, VÃO ACONTECENDO…// O QUE SERÁ QUE ACONTECEU COM A GENTE?// SERÁ QUE NÃO ACREDITAMOS MAIS EM NOSSA CAPACIDADE DE INDIGNAÇÃO?// SERÁ QUE NÃO APRENDEMOS A USAR OS INSTRUMENTOS DEMOCRÁTICOS PARA COBRAR O QUE É NOSSO POR DIREITO?// ESSA CORJA SEM ESCRÚPULOS QUE ASSALTA O PAÍS NOS FAZ A TODOS PALHAÇOS E AINDA ASSIM VAMOS DORMIR COMO SE NADA ESTIVESSE ACONTECENDO.// É RESPONSABILIDADE NOSSA, SIM, ABRIRMOS OS OLHOS PARA IDENTIFICAR AS RAPOSAS; APURARMOS A AUDIÇÃO PARA SABER DOS DESCALABROS; CHEIRAR, CHEIRAR E CHEIRAR PARA DESCOBRIR A PODRIDÃO.// E, NO FIM, VOCÊ VERÁ QUE ESTAMOS CERCADOS DE TANTOS CARNICEIROS QUE NEM SERÁ PRECISO CHEIRAR TANTO ASSIM.//

Vai se fo­der (com o per­dão do se­gundo verbo)

A tarde es­tava pro­pí­cia: sa­ba­dão chu­voso, eu so­zi­nho, sem nada pra fa­zer, aquela in­do­lên­cia ine­vi­tá­vel. Fui ver um filme. E, claro, co­mer pi­poca. Sa­cão. Quase sem­pre o maior. Não im­porta o ta­ma­nho. O maior, por fa­vor. E uma Coca 500 ml. Sala quase va­zia. O croc-croc-croc da pi­poca en­tre os den­tes en­chendo de graça o an­si­oso si­lên­cio. Quan­tas pol­tro­nas ti­nha a sala mesmo? Umas tre­zen­tas? Algo as­sim. Vinte pes­soas no má­ximo ali acon­che­ga­das. Ao pé da es­ca­di­nha, o ca­sal­zi­nho sobe abra­ça­di­nho. Put, put, put, put. Ca­dei­ras nu­me­ra­das. Todo mundo pensa que ca­deira nu­me­rada é ime­xí­vel. Tem que sen­tar lá. Mesmo que a sala es­teja va­zia. Vi­zi­nhos. Encolho-me. Chu­a­pltz. Derrete-se um pri­meiro bei­ji­nho. Ajeitam-se. Papo. Papo. Papo. Co­meça o filme. Riem. Sus­sur­ram. O filme se­gue. Ajeitam-se. Chu­a­pltz, chu­a­pltz. Riem. Ajeitam-se. Papo. Papo. Papo…

Pla­ta­for­mas

O mundo hoje está se­pa­rado em dois: o das pla­ta­for­mas tec­no­ló­gi­cas, que anun­ciam uma pro­funda trans­for­ma­ção no modo de se in­for­mar, de ler, de ver TV, de ou­vir mú­sica, de se mo­der­ni­zar; e o das pla­ta­for­mas re­ais, que vi­vem ala­ga­das, fé­ti­das e po­bres.

Com Mar­ti­nho da Vila (só no co­meço)

Eu quero me es­con­der de­baixo dessa sua saia pra fu­gir do mundo. Pra gi­rar con­tigo numa dança in­finda em que só você se sa­tis­faz. Ar­re­piar suas co­xas, quei­mar seu ven­tre, afa­gar sua alma. Pe­ne­trar sua alma. Lam­ber sua alma. Sa­li­var. Dei­xar es­cor­rer o lí­quido quente da mi­nha boca: es­quen­tar sua alma. Im­plo­dir, en­go­lido por suas tre­vas, sa­ci­ando as suas tre­vas, sob a né­voa do seu gozo: fi­car as­sim, úmido, sub­misso à sua fe­li­ci­dade: de­baixo dessa sua saia pra fu­gir do mundo. 

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