Crônicas

Definição da beleza

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009 Texto de


Es­cri­to­res, fi­ló­so­fos e pen­sa­do­res já es­cre­ve­ram tan­tas te­o­rias so­bre a be­leza que elas mui­tas ve­zes se abra­çam nas es­qui­nas das idéias ou sim­ples­mente to­mam ru­mos pa­ra­le­los e ja­mais se en­con­tram. O caso é que a be­leza, mais do que pro­pri­a­mente in­trín­seca à sub­je­ti­vi­dade, é algo su­pe­rior à pró­pria ca­pa­ci­dade de o ho­mem ima­gi­nar as for­mas que a cons­ti­tuem. E, por con­seqüên­cia, in­de­fi­ní­vel sob um ponto de vista con­creto.

Como de­fi­nir a foto que re­pro­duzo aqui? Foi feita pelo fo­tó­grafo Mark Par­dew, da As­so­ci­a­ted Press. O bom­beiro Da­vid Tree di­vide a água de sua gar­ra­fi­nha com um co­ala que se ma­chu­cou du­rante um dos ter­rí­veis in­cên­dios que as­so­lam a Aus­trá­lia. Como de­fi­nir esta ima­gem? Di­zer que ela é sim­ples­mente linda é su­fi­ci­ente? Chamá-la de ma­ra­vi­lhosa não pa­rece ba­nal? Tratá-la por di­vina se­ria exa­gero?

Não ima­gino uma de­fi­ni­ção para esta ima­gem. Só sei que ao deparar-me com seus con­tor­nos, um sen­ti­mento ins­pi­ra­dor per­mite que eu res­gate, do limbo, al­guns cré­di­tos para esta hu­ma­ni­dade gasta e des­bo­tada.

Há pou­cos dias, fui ver o filme “A Troca”. Um filme de Clint Eastwood sem­pre vale por sua di­re­ção ím­par. A obra não che­gar a ser uma “Me­nina de Ouro” nem um “So­bre Me­ni­nos e Lo­bos”, mas está bem acima da por­ca­ri­ada que sem­pre inunda as sa­las de ci­nema. No fim, há uma re­a­ção da pro­ta­go­nista em re­la­ção à es­pe­rança. Ela diz ter re­cu­pe­rado a es­pe­rança. E eu digo: este com­bus­tí­vel fun­da­men­tal para a vida.

No caso da cena ex­tra­or­di­ná­ria do ho­mem di­vi­dindo sua água com o co­ala, sua maior be­leza é exa­ta­mente esta: o po­der de res­ga­tar a es­pe­rança. Vá lá, que seja ao me­nos uma es­pe­ran­ça­zi­nha, mas as­sim mesmo não deixa de ser uma es­pe­rança.

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