Contos

Vítimas do trem noturno

domingo, 22 de maio de 2016 Texto de

Só mais dez mi­nu­tos, eu disse bai­xi­nho sem quase mo­ver os lá­bios para que eles não me ou­vis­sem. Ape­sar de tudo, eu ten­tava mos­trar na­tu­ra­li­dade. Ju­li­ana aper­tava tão forte mi­nha mão que che­gava doer. 

De rabo de olho pro­cu­rei es­piar am­bos os la­dos, e pelo que vi éra­mos só os cinco, nós duas e eles. Eu sa­bia que pe­gar Ju­li­ana pela mão e sair cor­rendo não de­via ser a op­ção acon­se­lhá­vel, mas foi a pri­meira coisa que me pas­sou pela ca­beça, sair cor­rendo sem olhar para trás, sem olhar para eles, como um peso ar­re­mes­sado adi­ante nas olim­pía­das.

Mas o grande en­trave, a grande merda, é que tal­vez essa hi­pó­tese tão enér­gica mor­resse numa pre­sun­ção irô­nica, pois me fal­ta­ria exa­ta­mente ener­gia su­fi­ci­ente para mi­nhas per­nas sus­ten­ta­rem o peso do corpo, tal o pa­vor que me per­cor­ria em on­das como numa có­lica de rim: a dor está ali, mas você não sabe de onde vem. 

Co­me­cei a for­mu­lar mil abs­tra­ções, uma tarde de sá­bado com as unhas de Ju­li­ana so­bre a mesa e eu fa­zendo aque­les en­fei­tes co­lo­ri­dos que ela adora, eu le­vando para casa o ca­chor­ri­nho que Ju­li­ana tanto me pede, Ju­li­ana lendo pela ené­sima vez o li­vro que ela mais gosta, mas ne­nhuma des­sas fan­ta­sias que vão se dis­tan­ci­ando de nos­sas vi­das ma­lu­cas co­lava.

A força in­te­gral do meu pen­sa­mento, cem por cento de mi­nhas ideias, o rolo com­pres­sor de toda a en­ge­nha­ria neurô­nica afluía para a per­cep­ção de que desta vez po­de­ría­mos, Ju­li­ana e eu, es­tar no pa­pel de to­das as ví­ti­mas anô­ni­mas dos no­ti­ciá­rios da te­le­vi­são, para quem ge­ral­mente olha­mos com ro­bó­tica com­pai­xão en­quanto mas­ti­ga­mos o jan­tar.

Ten­tando dis­far­çar ao má­ximo os mo­vi­men­tos, sa­quei o ce­lu­lar para en­viar uma men­sa­gem de so­corro ou algo pa­re­cido, tal­vez eu nem con­se­guisse for­mu­lar um pe­ríodo co­e­rente, uma ideia vaga ou mesmo uma des­sas me­do­nhas fra­ses trun­ca­das que ha­bi­tam nos­sas con­ver­sas nas re­des so­ci­ais.

Mal pude to­car o apa­re­lho, meus de­dos tre­miam e eu tive a cer­teza de que ele ro­la­ria pelo chão e me de­nun­ci­a­ria, quem sabe an­te­ci­pando a ação dos três. De­sisti de uma vez por­que tam­bém não era pos­sí­vel sol­tar a mão de Ju­li­ana. Até con­se­gui, mas ela a agar­rou no­va­mente um se­gundo de­pois.

Mi­nha ca­beça pa­re­cia gi­rar, o tempo pa­re­cia avan­çar e re­tro­ce­der si­mul­ta­ne­a­mente. Eu sa­bia que após o des­fe­cho dessa noite nada mais se­ria como an­tes, fi­si­ca­mente, men­tal­mente, eti­ca­mente ou qual­quer que fosse a base em to­dos os gê­ne­ros pos­sí­veis que per­mi­tam uma aná­lise do an­tes e do de­pois de um mo­mento cru­cial de sua vida. 

Olhei o re­ló­gio e vi que o tempo ca­pri­chava ter­ri­vel­mente em seu es­cár­nio. Tal­vez ainda fal­tas­sem sete ou oito mi­nu­tos! A ve­lo­ci­dade di­mi­nuiu pouco an­tes da es­ta­ção se­guinte, pla­ne­jei sal­tar ali com Ju­li­ana, mas não ha­via uma alma na noite lá fora. Eu es­tava tão ator­do­ada pela cir­cuns­tân­cia que por pouco não gri­tei quando um de­les se le­van­tou bem na nossa frente. 

Achei que fosse su­fo­car quando ele res­va­lou em mi­nha bolsa, não ha­via mais os de­dos de Ju­li­ana e os meus de­dos, eram cor­pos úni­cos, co­la­dos, in­te­gra­dos, me­ta­mor­fo­se­a­dos em um só or­ga­nismo amorfo, como nos po­tes dos la­bo­ra­tó­rios de fic­ção ci­en­tí­fica, por fa­vor, me mate, por fa­vor, me salve, mas a massa hu­mana sim­ples­mente pas­sou por mim e des­ceu.

Mi­nha res­pi­ra­ção era do­lo­rida e lenta, as cos­tas me doíam, o corpo todo la­te­java, eu pro­cu­rei es­con­der ao má­ximo essa des­carga de adre­na­lina e ao mesmo tempo ten­tei com­pre­en­der o que me mo­ti­vara a pen­sar que os três es­ta­vam jun­tos, com­bi­na­dos, que fa­ziam parte de um mesmo grupo, uma gan­gue pronta a ata­car, exa­ta­mente do tipo que apa­re­ceu on­tem no Jor­nal Na­ci­o­nal, des­sas que fo­dem com nos­sas vi­das no meio da rua sem que al­guém possa nos sal­var.

Mas a nova ar­ran­cada, a os­ci­la­ção do va­gão con­forme a ve­lo­ci­dade au­men­tava, a noite lá fora, o sen­tido ver­ti­gi­noso do nosso des­tino e, claro, os dois que ti­nham res­tado di­ante de nosso banco, sen­ta­dos à nossa frente como ho­mens ino­cen­tes, ci­da­dãos até que se prove o con­trá­rio, tudo isso me de­vol­veu ao pe­sa­delo an­te­rior, à ame­aça à nossa in­te­gri­dade fí­sica, à es­co­li­nha de Ju­li­ana, ao apar­ta­mento que pre­tendo com­prar em in­fi­ni­tas pres­ta­ções, ao ter­ror, en­fim, de ví­ti­mas que vi­vem a re­me­diar suas do­res pela eter­ni­dade de sua exis­tên­cia. Na es­ta­ção se­guinte, para mi­nha sur­presa, mais um de­les sal­tou.

E de­pois, na úl­tima an­tes da nossa, o ou­tro.

Fal­ta­vam dois ou três mi­nu­tos para des­cer­mos. Sem dis­far­çar, olhei para os dois la­dos. Avis­tei o ho­ri­zonte quase va­zio dos va­gões vi­zi­nhos. En­fiei a mão li­vre na bolsa, agora sim se­gu­rei com fir­meza o ce­lu­lar. Aces­sei o What­sApp, vi que ha­via vá­rias men­sa­gens de casa, de ami­gos, do grupo de tra­ba­lho.

Lem­brei do di­nheiro guar­dado num dos com­par­ti­men­tos, abri o zí­per como uma tola, como se uma mão in­vi­sí­vel pu­desse ter se me­tido ali, apal­pei as cé­du­las, mas eram tão pou­cas que senti a face in­cen­diar. Dali a pouco o trem iria re­du­zir a ve­lo­ci­dade, mas ainda cor­ria a toda pe­los tri­lhos, vi o rio re­fle­tindo lu­zes dis­tan­tes, ár­vo­res que se re­du­ziam a som­bras, um céu in­vi­sí­vel mas inequí­voco que pa­re­cia guar­dar la­men­tos e des­lum­bra­men­tos.

Fi­ze­mos o res­tante do per­curso em si­lên­cio, Ju­li­ana ainda com as mãos cra­va­das nas mi­nhas. Eu não ten­tei di­zer nada a ela. Não sei se con­se­gui­ria di­zer algo a ela, tal­vez mi­nha voz fa­lhasse feio ou sim­ples­mente não so­asse na­tu­ral ou quem sabe, o que é bem pro­vá­vel, vi­esse acom­pa­nhada de um pranto amargo, amargo de pa­vor, amargo de medo, amargo de raiva. 

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