Contos

O viúvo influenciável e a puta velha de García Márquez

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016 Texto de

Leu o conto de Gar­cía Már­quez so­bre a puta ve­lha que treina o ca­chor­ri­nho para cho­rar em seu tú­mulo por­que acha que vai mor­rer, e na­quela mesma noite so­nhou com uma im­pres­si­o­nante tris­teza ja­mais sen­tida. Es­tava em pé num lu­gar in­certo e va­zio, cer­cado pela es­cu­ri­dão, de onde ou­via la­ti­dos va­gos que ima­gi­nava ser do cão­zi­nho vira-lata com quem ha­via dez anos di­vi­dia seu apar­ta­mento de viúvo. In­flu­en­ciá­vel que era, acor­dou certo de sua pró­pria morte.Tudo se en­cai­xava, afi­nal, não era? Na noite an­te­rior, pas­sara a mão ao acaso pela es­tante e de lá res­ga­tara o li­vro, que abriu em tal pá­gina e se pôs a ler. Ainda es­tava jo­gado ao lado da cama, ser­vindo de tra­ves­seiro para o Tião, cu­jas ore­lhas se er­gue­ram junto com o dono. 

Ob­ser­vado an­si­o­sa­mente do modo que to­dos os do­nos são ob­ser­va­dos de ma­nhã pe­los seus ca­chor­ros, sen­tou na bei­rada da cama como se de fato já ti­vesse se tor­nado de­funto. Ia mesmo mor­rer. Por que di­a­bos ainda não ti­nha pen­sado efe­ti­va­mente na pos­si­bi­li­dade? Ocu­pado com as pu­ti­nhas no­vas, pen­sou ao en­fiar nos chi­ne­los os pés lam­bi­dos pelo Tião. Sentiu-se abrup­ta­mente cons­tran­gido. Quase oi­tenta anos e ainda me ocu­pando de­las, sabe Deus pra quê. A lin­gui­nha do Tião se en­vi­e­sava boca afora, e ele pen­sou de ime­di­ato que, sim, Deus sa­bia pra quê. Ele tam­bém. E o ca­chorro.

De­pois de to­mar uma xí­cara grande de café e de dar ra­ção e água para o Tião, decidiu-se a sair para cum­prir o plano que não soube bem como se in­tro­me­teu em sua mente. O ca­lor su­fo­cante da rua der­ra­mava uma luz de der­re­ter vi­tri­nes, e ele se en­tre­gou à hi­pó­tese de que, ofe­gando como es­tava àquela al­tura, tal­vez mor­resse de um en­farte qual­quer a ca­mi­nho da fu­ne­rá­ria. Mas não mor­reu. Ape­nas se em­pa­pou de um suor denso como a massa dos pró­prios pen­sa­men­tos na­quela ma­nhã em que de­ci­diu por conta pró­pria os ter­mos de seu fim. Com a ca­misa gru­dada à pele, es­co­lheu um ser­viço con­si­de­rado “mé­dio” na ta­bela de pre­ços, pa­gou adi­an­tado com des­conto.

Ao vol­tar para casa, des­li­zou a bunda ma­grís­sima até se en­cos­tar à al­mo­fada gor­dís­sima do sofá da sala com a te­le­vi­são des­li­gada e Tião ao lado. Agora pre­ciso en­si­nar a você como se chora. Mas tam­pouco ele se lem­brava de como cho­rar. Você ainda não exis­tia quando ela se foi, disse a Tião. Ti­nha sido a úl­tima vez. Te­rei que re­a­pren­der, sor­riu para o ca­chorro e o ca­chorro su­biu man­sa­mente no sofá e dei­tou ao seu lado. Es­tava per­dido em suas con­jec­tu­ras so­bre a che­gada da morte quando to­ca­ram a cam­pai­nha. Por um ins­tante, ima­gi­nou ser a pró­pria, em vez da mu­lher que lhes tra­zia a mar­mita.

Du­rante o al­moço, quase não co­meu, man­teve o olhar va­gue­ando so­bre os te­lha­dos que dan­ça­vam ao mor­maço ge­la­ti­noso do meio-dia. Uma pres­são obs­ti­nada no peito o fa­zia re­cor­dar o so­nho da noite pas­sada, e com o so­nho, o conto, e com o conto, a ideia da morte, num ci­clo in­ter­mi­ná­vel en­tre as pou­cas gar­fa­das. A sen­sa­ção de uma tris­teza ja­mais sen­tida pa­re­cia se re­vi­go­rar con­forme seus pen­sa­men­tos a in­vo­ca­vam de den­tro do mar­tí­rio do so­nho. Sentiu-se tão só quanto a per­so­na­gem de Gar­cía Már­quez com seu cão­zi­nho no ce­mi­té­rio de Bar­ce­lona. Não te­rei tempo de ensiná-lo, disse em voz alta para que Tião o ou­visse. Mor­re­rei hoje mesmo, ou­viu a si pró­prio como se a pró­pria voz vi­esse de uma di­men­são im­pró­pria.

Arrastando-se de­va­gar como se a morte ti­vesse co­me­çado seu tra­ba­lho ina­diá­vel pe­las per­nas, le­vou o prato e os ta­lhe­res até a pia, mas não abriu a tor­neira. Pra quê? Um sor­riso mór­bido lhe atra­ves­sou a face quando se deu conta de que po­dia dei­xar tudo como es­tava, pois nada mais lhe di­zia res­peito ali ou em qual­quer ou­tro lu­gar de qual­quer apar­ta­mento de qual­quer mundo. Es­tava para mor­rer, eis tudo. E foi quando viu Tião dei­tado de cos­tas so­bre o ta­pete da sala. Es­tava es­ti­rado de um modo tão acin­toso, com as pa­ti­nhas er­gui­das no ar, que a prin­cí­pio ele ima­gi­nou se tra­tar de mais uma das inú­me­ras pe­ri­pé­cias de seu par­cei­ri­nho de far­ras diá­rias. Mas não foi bem o que acon­te­ceu.

Eis o que acon­te­ceu: Tião é que mor­rera, e não ele. Quando to­mou cons­ci­ên­cia do dri­ble do des­tino, foi como o dia em que en­cos­tou a mão no fio de­sen­ca­pado do chu­veiro. Ajoelhou-se ao lado de Tião e não foi pos­sí­vel re­pri­mir a ideia sa­do­ma­so­quista de que a ve­lha puta de Gar­cía Már­quez teve me­lhor sorte do que ele. Mas um se­gundo de­pois, trê­mulo, ao se­gu­rar as pa­ti­nhas rí­gi­das de Tião, viu que mesmo sem ter mor­rido so­nhara um so­nho pre­mo­ni­tó­rio, pois ja­mais sen­tira uma tris­teza tão bru­tal como aquela que agora po­dia até apal­par.

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