Crônicas

“Ela”, o filme, e o tronco da bananeira

sexta-feira, 4 de abril de 2014 Texto de

Eu co­nheci um cara que na in­fân­cia ti­nha uma ba­na­neira pre­fe­rida. “Quando eu faço o bu­raco no tronco, eu con­verso com ela”, ele me disse uma vez. “E eu a ouço quando a gente está… você sabe”, ele tam­bém me disse. Veja bem o que ele me disse: “… quando a gente está”. Ou seja, ele in­cluiu a ba­na­neira no mundo da ra­zão, ele deu uma cons­ci­ên­cia à ba­na­neira.

Ao ver “Ela”, filme per­tur­ba­dor para quem busca na so­li­dão uma com­pa­nheira leal, lembrei-me dessa con­fis­são, feita numa hora besta en­quanto mi­já­va­mos à beira de um cam­pi­nho de fu­te­bol. O sis­tema ope­ra­ci­o­nal por quem o per­so­na­gem de Jo­a­quin Pho­e­nix se apai­xona num fu­turo pró­ximo é a ba­na­neira do meu quase-amigo.

O tempo corre, mas os ins­tin­tos bá­si­cos so­bre­vi­vem ao tempo.

Por mais so­zi­nhos que pen­se­mos es­tar, há algo aqui den­tro pul­sando inin­ter­rup­ta­mente e nos cha­mando para jo­gar. E cer­ta­mente não se trata da ba­na­neira nem do sis­tema ope­ra­ci­o­nal, mas do grito louco que to­dos te­mos no peito e que uns con­se­guem su­fo­car mais do que ou­tros.

En­tre a ba­na­neira do meu quase-amigo e o sis­tema ope­ra­ci­o­nal do Jo­a­quin Pho­e­nix, dá em­pate. Por­que a ba­na­neira ti­nha a van­ta­gem fí­sica para que meu quase-amigo fi­zesse lá o bu­raco ne­ces­sá­rio para ma­tar seus de­se­jos, mas o sis­tema ope­ra­ci­o­nal de “Ela” é ca­paz de, ele mesmo, envolver-se sen­ti­men­tal­mente com Jo­a­quin Pho­e­nix (fora a voz da Scar­lett Johans­son, né?) 

Quanto aos hu­ma­nos, a busca pela ba­na­neira na­que­les tem­pos re­pre­sen­tou para meu quase-amigo um im­por­tante de­grau na es­cala evo­lu­tiva do pra­zer. Já o pro­ta­go­nista de “Ela”, fa­zendo jus aos tem­pos mo­der­nos, con­se­gue am­pliar seus ho­ri­zon­tes amo­ro­sos (e tal­vez fu­gir de sua cruel re­a­li­dade) ao li­dar com uma re­la­ção que, no fim das con­tas, é cria de sua ca­pa­ci­dade de for­ma­tar a ima­gi­na­ção a par­tir de suas pró­prias de­man­das sen­ti­men­tais.

Nos dois ca­sos, en­tre­tanto, as­sim como sem­pre acon­tece nos mo­men­tos em que bo­ta­mos o pe­zi­nho na­quela faixa de solo ilu­mi­nada por uma placa es­ti­losa que faz bri­lhar a pa­la­vra avanço, nos dois ca­sos nos­sos he­róis cor­rem o risco de se me­ter em be­las en­ras­ca­das.

É, fa­zer o quê? O des­co­nhe­cido é um tanto es­curo. E às ve­zes, ma­chuca.

“Não sei se foi aquele leite, sabe?”, justificou-se meu quase-amigo à beira do cam­pi­nho, am­bos já no fim da mi­jada. “Olha aqui”, ele virou-se para mim, “tá vendo?”. E mos­trou a pele do dito cujo com uma man­cha es­cura. “Acho que quei­mou.”

“Ela” queima.

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