Crônicas

Âncora para a vida

sábado, 12 de abril de 2014 Texto de
A casa onde nasci, num bairro rural de Cafelândia, estava assim há alguns anos

A casa onde nasci, no bairro ru­ral La­goa Seca, es­tava as­sim há al­guns anos

(Texto feito para o Jor­nal Ci­dade, de Ca­fe­lân­dia)

Pelo fa­ce­book, o Paulo Ro­berto Go­mes per­gunta se eu posso es­cre­ver uma “ho­me­na­gem” a Ca­fe­lân­dia. Eu, pra di­zer a ver­dade, não sei se sa­be­ria for­mu­lar algo desse tipo. Mi­nhas ho­me­na­gens às coi­sas que eu gosto es­tão no meu co­ti­di­ano. Por exem­plo: até há pouco tempo, eu era di­re­tor de vá­rias re­da­ções de jor­nal e vi­a­java to­das as se­ma­nas para di­fe­ren­tes re­giões do es­tado de São Paulo. Era muito co­mum me per­gun­ta­rem por aí: e sua ci­dade, como vai? Eu res­pon­dia: bom, você deve es­tar fa­lando de Bauru, mas eu sou de Ca­fe­lân­dia, co­nhece?

Em­bora eu viva em Bauru, ci­dade que adoro, ja­mais dei­xei de lado mi­nha Ca­fe­lân­dia. Além da fa­mí­lia e de ami­gos, um pouco de mim con­ti­nua aqui. 

Con­ti­nua aqui por­que foi onde co­me­cei o apren­di­zado para uma vida cujo maior ob­je­tivo é não me se­pa­rar da dig­ni­dade e da ho­nes­ti­dade, re­fe­rên­cias to­ma­das no seio fa­mi­liar e a par­tir das quais é pos­sí­vel en­xer­gar o mundo com es­pe­rança. Eu sei que a busca por es­sas ca­rac­te­rís­ti­cas in­di­vi­du­ais não passa de obri­ga­ção para qual­quer ser hu­mano, mas uma obri­ga­ção que nos dias de hoje me pa­rece bas­tante pá­lida.

Em mo­men­tos cru­ci­ais da mi­nha vida, quando pre­ci­sei to­mar de­ci­sões im­por­tan­tes no campo pro­fis­si­o­nal ou pes­soal, esse apren­di­zado sem­pre fa­lou mais alto. 

Em Ca­fe­lân­dia tive meu pri­meiro em­prego, aos 14 anos. Eu era um tra­ba­lha­dor bra­çal: var­ria a loja, es­pa­nava os mó­veis, aju­dava a car­re­gar o ca­mi­nhão para as en­tre­gas e fa­zia tam­bém ou­tros ser­vi­ços mais le­ves, como ir ao banco e le­var as con­tas aos cli­en­tes, de casa em casa, no fim do mês.

Eu penso nessa época com ca­ri­nho. Às ve­zes, con­fesso, eu me sen­tia hu­mi­lhado ao de­sem­pe­nhar cer­tas ta­re­fas, mas as­sim mesmo as fa­zia. Hoje, olho pelo re­tro­vi­sor e vejo que, afi­nal, tá va­lendo! O ho­mem pre­cisa do des­con­forto e da ad­ver­si­dade para va­lo­ri­zar o que é bom e belo. 

Pre­cisa da dor para apro­vei­tar me­lhor o pra­zer.

Quando o Paulo me pe­diu um texto em ho­me­na­gem a Ca­fe­lân­dia, pen­sei em ci­tar um monte de gente ba­cana com quem con­vivi e com quem aprendi. Mas de­sisti da ideia por­que cor­re­ria o risco de omi­tir no­mes que, no de­cor­rer dos tem­pos, vão se aco­mo­dando nas pro­fun­de­zas da mi­nha meia dú­zia de neurô­nios.

E desse modo, para evi­tar que este texto te­nha um con­torno im­pes­soal, para não deixá-lo se per­der na ne­blina das coi­sas ge­né­ri­cas, re­solvi es­cre­ver aqui o nome de uma só pes­soa, que tem no­breza de ca­rá­ter su­fi­ci­ente para ilus­trar na prá­tica mi­nha me­mó­ria afe­tiva de Ca­fe­lân­dia: Iri­neu Me­ne­gassi.

Ou­tro dia es­crevi em al­gum lu­gar que sem­pre tive muita sorte com meus pa­trões e che­fes. O Seu Iri­neu foi um dos pri­mei­ros. Culto, sim­pá­tico, com­pe­tente, apre­ci­a­dor de mú­sica or­ques­trada e ar­tista es­me­rado e cui­da­doso. Um exem­plo para qual­quer ga­roto que, como eu, es­tava saindo das fral­das.

Lembro-me de uma grande li­ção que re­cebi dele e que me ser­viu de modo de­ci­sivo para mi­nha con­duta pro­fis­si­o­nal. Eu ainda tra­ba­lhava na Casa Chic quando co­me­cei a es­cre­ver para o Jor­nal de Ca­fe­lân­dia. Na mi­nha co­luna, eu não eco­no­mi­zava crí­ti­cas ao pre­feito. Crí­ti­cas, às ve­zes, áci­das de­mais, pe­sa­das para a época. Foi quando o Seu Iri­neu me cha­mou ao es­cri­tó­rio e, com sua edu­ca­ção re­fi­nada tra­du­zida num tom de voz calmo e pa­ter­nal, disse algo as­sim: “Márcio, você deve re­al­mente cri­ti­car o que está er­rado, mas acho que sem­pre é bom fa­zer isso com res­peito”.

É isso. Esse con­se­lho en­trou na mi­nha ca­beça como a ân­cora que sub­merge sob o na­vio para dar a ele se­gu­rança e es­ta­bi­li­dade. Uma ân­cora que pode ser er­guida e bai­xada à me­dida das ne­ces­si­da­des. Ca­fe­lân­dia não deixa de ser uma ân­cora na mi­nha vida. E, acho eu com jus­tiça, o Seu Iri­neu é um le­gí­timo re­pre­sen­tante da­quilo que há de bom nesta terra. 

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