Crônicas

De responsabilidade e colhões

quarta-feira, 26 de março de 2014 Texto de

Quan­tas ve­zes já ou­vi­mos al­guém bra­dar “quero ver se ele tem co­ra­gem de di­zer isso na mi­nha cara”? Esse tipo de frase e seus afins são co­muns quando as pes­soas se sen­tem ofen­di­das por pa­la­vras di­tas longe de sua pre­sença.

No jor­na­lismo costuma-se di­zer que é muito mais fá­cil cri­ti­car os po­lí­ti­cos de Bra­sí­lia, que ge­ral­mente es­tão dis­tan­tes, do que fa­lar da­que­les mais pró­xi­mos, dos ho­mens pú­bli­cos que po­dem ser en­con­tra­dos nos ba­res, res­tau­ran­tes ou mesmo nas ruas por onde pas­sa­mos.

De fato, a ve­lha tese de que é mais fá­cil ter co­lhões quando sua ví­tima está fora do al­cance fí­sico pa­rece ga­nhar corpo nas re­des so­ci­ais.

Tornou-se uma ba­na­li­dade do co­ti­di­ano os usuá­rios man­da­rem chumbo quente em fi­gu­ras pú­bli­cas, como po­lí­ti­cos, ar­tis­tas e jo­ga­do­res de fu­te­bol, en­tre ou­tros. Mas é um chumbo ati­rado de uma dis­tân­cia se­gura.

Muita gente se apro­veita do es­cudo vir­tual para des­ti­lar pa­la­vrões ba­nha­dos a ódio con­tra quem quer que seja. Pre­si­dente da re­pú­blica, go­ver­na­do­res, se­na­do­res, de­pu­ta­dos, nin­guém se salva. 

Na ver­dade, quase sem­pre os usuá­rios têm um fundo de ra­zão em sua re­volta. Isso, en­tre­tanto, não jus­ti­fica a falta de res­peito e os ata­ques pes­so­ais, mui­tas ve­zes des­fe­ri­dos a par­tir de fal­sas no­tí­cias, bo­a­tos ou mesmo acu­sa­ções que ainda não fo­ram de­vi­da­mente apu­ra­das.

Em boa parte dos ca­sos, as ofen­sas são con­fun­di­das com a tal li­ber­dade de ex­pres­são. A li­ber­dade de ex­pres­são tal­vez seja o mais va­li­oso re­curso de uma so­ci­e­dade de­mo­crá­tica. Po­rém, é pre­ciso compreendê-la, sa­ber até onde vão os li­mi­tes de sua abran­gên­cia.

Claro que o tema me­rece um tra­tado e é po­lê­mico. Mas acho que se nos ape­gar­mos a uma re­gri­nha bas­tante sim­ples já será um bom co­meço: quando for cri­ti­car um ci­da­dão (seja lá quem for) pe­las re­des so­ci­ais, es­creva ape­nas o que você te­ria co­ra­gem de di­zer a ele pes­so­al­mente. Ou, se pre­fe­rir ser ainda mais ri­go­roso, diga ape­nas o que você tem cer­teza de que pode sus­ten­tar num tri­bu­nal.

Para agir as­sim nem é pre­ciso ter co­lhões, mas ape­nas res­pon­sa­bi­li­dade.

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