Crônicas

O chiqueirinho do elo perdido

sexta-feira, 28 de março de 2014 Texto de

A dis­cus­são na As­sem­bleia Le­gis­la­tiva so­bre a cri­a­ção de va­gões ex­clu­si­vos para mu­lhe­res no Me­trô é quase ina­cre­di­tá­vel. Pa­rece ro­teiro de um des­ses pro­gra­mas de hu­mor que exa­ge­ram nos te­mas des­pre­zí­veis e em suas ca­ri­ca­tu­ras exa­ta­mente com o ob­je­tivo de cha­mar aten­ção para o ab­surdo que re­pre­sen­tam.

Não pa­rece um so­nho sur­real que no ano 2014 pen­sem em ins­tru­men­tos de pro­te­ção para o pú­blico fe­mi­nino? E uma pro­te­ção para salvá-lo dos… ho­mens???

Sus­ten­tada por meia dú­zia de neurô­nios lú­ci­dos, mi­nha tese para a exis­tên­cia hu­mana é de um re­gime ri­go­ro­sa­mente cí­clico, um ci­clo cir­cu­lar.

As­sim como cir­cu­lam os pla­ne­tas no sis­tema so­lar, a lua ao re­dor da terra, e a terra em torno de si mesma, tam­bém desse mesmo modo avança a hu­ma­ni­dade: em ci­clos que, de al­gum modo, repetem-se de tem­pos em tem­pos sem que, mui­tas ve­zes, to­me­mos cons­ci­ên­cia do fenô­meno.

Um exem­plo quase an­tro­po­ló­gico: no meio do sé­culo pas­sado, originou-se um des­me­dido êxodo ru­ral. O campo esvaziou-se. As ci­da­des in­cha­ram. Hoje, sen­ta­das so­bre a merda que fi­ze­ram, as pes­soas ten­tam zar­par para lo­cais pró­xi­mos da na­tu­reza. E, como agi­ram nas ci­da­des, nesta etapa se­guinte se ocu­pam de pro­vi­den­ciar uma nova de­vas­ta­ção.

As bri­lhan­tes tec­no­lo­gias, a cor­re­ria das me­tró­po­les, as re­la­ções su­per­fi­ci­ais e todo o es­tré­pito que cons­ti­tui os pi­la­res da cha­mada so­ci­e­dade mo­derna são cada vez mais ques­ti­o­na­dos por se­to­res que, ao con­trá­rio da grande zum­bi­lân­dia que per­corre as ruas de ca­beça baixa e olhos co­la­dos no vi­sor de seus ce­lu­la­res, ipads e o es­cam­bau, es­ses se­to­res vis­lum­bram já a ne­ces­si­dade de uma vida mais sim­ples para que pos­sa­mos nos apro­xi­mar o má­ximo pos­sí­vel da­quilo para o que vi­ve­mos: a tal fe­li­ci­dade.

O que eu sin­ce­ra­mente não es­pe­rava é que mi­nha tese es­ti­vesse tão pal­pá­vel a ponto de in­cluir as­pec­tos com­por­ta­men­tais fun­da­men­ta­dos em ci­vi­li­za­ções ar­cai­cas, tão ar­cai­cas que as re­la­ções en­tre ho­mem e mu­lher de­vem ser mo­ni­to­ra­das por apa­re­lhos alheios à ca­pa­ci­dade da ra­zão. Ca­pa­ci­dade da ra­zão que, aliás, de­fine o pró­prio ser hu­mano. Que o dis­tin­gue, por exem­plo, das hi­e­nas.

E ve­jam agora a que ponto che­ga­mos. A li­nha do ci­clo no qual acre­dito reencontra-se a esta al­tura dos trá­gi­cos acon­te­ci­men­tos com uma es­pé­cie de elo per­dido. Por­que o ser hu­mano, ao dis­cu­tir a se­gre­ga­ção fe­mi­nina ou, tanto faz, a cri­a­ção de um chi­quei­ri­nho adulto, re­torna me­do­nha­mente a um tempo em que sua ca­pa­ci­dade de ex­pres­são não pas­sava de aummmm ea­a­aummm ou­u­u­u­aaa io­o­oou oooo aa­a­o­ooo ua­a­a­aoo…

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