Crônicas

O que restou

terça-feira, 25 de março de 2014 Texto de

Ou­tro dia, fo­mos pas­sear pela zona ru­ral de Ca­fe­lân­dia, em di­re­ção ao Ti­etê, fron­teira com Novo Ho­ri­zonte. Ca­fe­lân­dia é um mu­ni­cí­pio ex­tenso. Deve ter em torno de ses­senta quilô­me­tros en­tre as ex­tre­mi­da­des mais dis­tan­tes. Tí­nha­mos a ideia de vi­si­tar umas ma­tas que até pou­cas dé­ca­das atrás abri­ga­vam ani­mais de porte. Onça, veado-galheiro etc. Quem sabe, por acaso, um des­ses bi­chos apa­re­cesse em nosso ca­mi­nho…

Mas o que eu vi foi cana. Cana, cana e mais cana. Sim, é um pro­duto ne­ces­sá­rio à eco­no­mia. Exis­tem ali perto al­gu­mas usi­nas. Mui­tas pro­pri­e­da­des da re­gião fo­ram ar­ren­da­das para o plan­tio. E seus do­nos vi­vem, em al­guns ca­sos ex­clu­si­va­mente, da renda ob­tida com o ne­gó­cio.

O que me chama a aten­ção, en­tre­tanto, é como a re­gião está des­ma­tada sem ne­nhum pu­dor. Em pou­cas dé­ca­das a pai­sa­gem foi al­te­rada de modo sig­ni­fi­ca­tivo. De fato, não é uma ca­rac­te­rís­tica es­pe­cí­fica de Ca­fe­lân­dia ou qual­quer ou­tra ci­dade. O des­ma­ta­mento sem cri­té­rios moeu a ve­ge­ta­ção bra­si­leira no sé­culo pas­sado.

Di­zem que hoje o Ibama torce o na­riz até para o corte de lei­tei­ros, uma praga que se alas­tra fa­cil­mente pe­los pas­tos ou áreas aban­do­na­das. Mas te­nho a im­pres­são de que é um pouco tarde. O ri­gor atual de­ve­ria ter sido ado­tado em me­a­dos do sé­culo vinte. Tal­vez as­sim ti­vés­se­mos hoje um equi­lí­brio ra­zoá­vel para o meio am­bi­ente.

Olhando para to­dos os go­ver­nos que co­nheci e para nossa so­ci­e­dade “mo­derna”, não sou ca­paz de ima­gi­nar uma ação de grande es­cala que possa re­cu­pe­rar ao me­nos parte do que se per­deu (ve­ge­ta­ção e ani­mais). O de­sa­pego do ho­mem às suas raí­zes, a ex­trema am­bi­ção mer­can­til e a falta de ver­da­dei­ras po­lí­ti­cas am­bi­en­ta­lis­tas, en­tre ou­tros as­pec­tos, con­de­nam a terra ao de­se­qui­lí­brio e à ex­tin­ção de mui­tas de suas ri­que­zas.

As pe­que­nas man­chas de ma­tas, es­pre­mi­das en­tre a cana, são como as raquí­ti­cas pra­ças com meia dú­zia de ár­vo­res em meio às cons­tru­ções das ci­da­des. Não há grau de com­pa­ra­ção en­tre suas ex­ten­sões.

Em nossa pe­quena vi­a­gem nos ca­mi­nhos de terra mar­ge­a­dos pela cana e por del­ga­das fai­xas de mata que se aca­bam a pou­cos me­tros dali, tí­nha­mos a es­pe­rança (não a ex­pec­ta­tiva, mas ape­nas a es­pe­rança) de to­par com um ou ou­tro ani­mal de certo porte. Mas, fora os pás­sa­ros, vi­mos ape­nas um pe­queno preá que, já na parte as­fal­tada da es­trada, ace­le­rou o passo para fu­gir das ro­das do carro que avan­çava de volta à ci­dade.

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