Crônicas

Piadas, Nelson Ned, música e morte

domingo, 5 de janeiro de 2014 Texto de

Cli­que aqui para ou­vir “Tudo pas­sará”

Di­fi­cil­mente eu guardo na me­mó­ria uma pi­ada. Acho que é por­que eu não gosto da mai­o­ria de­las. Uma pi­ada quase sem­pre é de­pre­ci­a­tiva, pre­con­cei­tu­osa, ra­cista e, ainda mais quase sem­pre, de mau gosto.

Hoje, do­mingo, vejo no fa­ce­book uma sé­rie de pi­a­das so­bre a morte de Nel­son Ned, boa parte dis­far­çada sob o pseudô­nimo de “en­terro de anão”. 

Há tan­tas pi­a­das so­bre a morte. Al­gu­mas são boas, des­pro­vi­das do ranço que enu­me­rei no pri­meiro pa­rá­grafo. Às ve­zes, nem pi­a­das são. São his­tó­rias, mesmo. Fa­tos.

Na mi­nha ci­dade, con­tam a pas­sa­gem de um ve­lhi­nho que ado­rava to­car pan­deiro e não po­dia ver uma ro­di­nha de pes­soas que já ia che­gando, ba­tendo no seu ins­tru­mento mu­si­cal.

Pois bem. Numa certa noite, de­pois de to­mar umas e ou­tras, ele vol­tava para casa quando uma aglo­me­ra­ção cha­mou sua aten­ção. Festa, deve ter pen­sado. E, como as ma­ri­po­si­nhas de Ado­ni­ran, dirigiu-se para as lu­zes agi­ta­das. Era um ve­ló­rio. Di­zem que saí­ram com ele nas cos­tas.

A his­to­ri­nha en­volve morte, mú­sica e bom hu­mor. É ino­fen­siva. Quase in­gê­nua.

Mas nem sem­pre a brin­ca­deira obe­dece a con­tor­nos sin­ge­los, prin­ci­pal­mente quando o as­sunto é a dita cuja. E é isso que me as­susta. Será que as pes­soas que se pro­põem a fa­zer pi­a­das de mau gosto com a morte o fa­zem cons­ci­en­te­mente? Será que o fa­zem com a ra­zão em dia?

Uma vez, numa das re­da­ções onde tra­ba­lhei, ha­via vá­rios jor­na­lis­tas jo­vens, bem jo­vens (acho que até eu era jo­vem na época). Foi no ano em que mor­reu o de­pu­tado fi­lho de An­to­nio Car­los Ma­ga­lhães.

A TV trans­mi­tia o ve­ló­rio ao vivo e, claro, ACM apa­re­cia cons­tan­te­mente. Cho­rava cons­tan­te­mente. E na re­da­ção al­guns dos jo­vens jor­na­lis­tas co­me­mo­ra­vam o so­fri­mento do ve­lho co­ro­nel da po­lí­tica nor­des­tina. Como se a perda de um fi­lho fosse di­fe­rente en­tre um po­bre e um rico, na casa grande ou na sen­zala, en­tre um po­lí­tico e um elei­tor, en­tre um ho­mem ho­nesto e um cor­rupto ex­plo­ra­dor fi­lho da puta.

O fato é que não me lem­bro de ter ou­vido uma mú­sica na voz de Nel­son Ned. Mi­nhas eclé­ti­cas pre­fe­rên­cias mu­si­cais nunca o in­cluí­ram no meu se­tlist. Até que certo dia, no Rio de Ja­neiro, eu e al­guns ami­gos saí­mos da praia para al­mo­çar. Na rua, ao lado do bar “Ga­rota de Ipa­nema”, ha­via um grupo can­tando. Um dos su­jei­tos ti­nha um vo­zei­rão es­pe­ta­cu­lar. E bem nessa hora, sob uma in­co­mum ga­roa ca­ri­oca, foi que ou­vi­mos “Tudo pas­sará”, eter­ni­zado na voz de Nel­son Ned.

Eu sei, com­pre­endo – e acho na­tu­ral –, que para muita gente, e tal­vez para mim mesmo caso es­ti­vesse do ou­tro lado, ou seja, não ti­vesse par­ti­ci­pado da­quele acaso, para muita gente esse lapso do co­ti­di­ano nada re­pre­senta. Por­que re­al­mente é es­tra­nho ex­pli­car como um mo­mento tão sim­ples te­nha se tor­nado tão es­pe­cial.

Es­tá­va­mos, tal­vez, an­dando tão à flor da pele que qual­quer beijo de no­vela nos fi­zesse cho­rar, como canta Zeca Ba­leiro? Fra­gi­li­za­dos por ra­zões pes­so­ais? Ou ape­nas en­tre­gues à emo­ção que o Rio de Ja­neiro é ca­paz de nos im­preg­nar? Quem sabe?

Quem po­derá sa­ber?

Quem po­derá men­su­rar ins­tan­tes in­tra­du­zí­veis cujo teor mer­gu­lha nas pro­fun­de­zas da mú­sica?

Quem po­derá men­su­rar a emo­ção da morte? Seja na casa de luto em que o ve­lhi­nho in­va­diu ino­cen­te­mente com seu pan­deiro, seja no ve­ló­rio do fi­lho do po­lí­tico odi­ado, seja no en­terro do anão.

Acho que muita gente se per­deu na fu­ti­li­dade (se qui­se­rem, na su­per­fi­ci­a­li­dade) das re­la­ções. A vida hoje se pa­rece mais com um ob­jeto que po­de­mos en­ter­rar no quin­tal do que com uma me­mó­ria rica que de­ve­mos guar­dar.

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