Contos

Réquiem aos fantasminhas apaixonados

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014 Texto de

– Está bem, está bem, mas é a úl­tima vez que eu conto.
 – Até pa­rece…
 – Ca­ramba, já não te­nho mais pa­ci­ên­cia para isto!
 – Você fala as­sim to­das as ve­zes que vol­ta­mos aqui. Aliás, você tem cer­teza de que foi aqui? O poste era este mesmo?
 – Vê? Você sem­pre re­pete es­tas mes­mas per­gun­tas!
 – Des­culpe, des­culpe, é a força do há­bito. Não di­rei mais nada, mas conte, por fa­vor.
 – Sim! Foi aqui mesmo. Bem… o poste não, o poste era ou­tro, de ma­deira, mas foi exa­ta­mente aqui.
 – Era de noi­ti­nha…
 – Sim, sim, de noi­ti­nha, você bem sabe. Você sabe tudo, de cor e sal­te­ado.
 – Con­fesso que sim, mas gosto de ou­vir você con­tar.
 – Vê esta casa em frente? Es­tou para di­zer que o por­tão­zi­nho de ferro é o mesmo.
 – Sé­rio?
 – E aquele ve­lhi­nho dor­mindo na va­randa era ape­nas um ga­ro­ti­nho, pode acre­di­tar.
 – Sim, eu acre­dito!
 – Eu a via to­dos os dias na es­cola, mas não ti­nha co­ra­gem para me de­cla­rar.
 – Ela o co­nhe­cia?
 – Não, não… não éra­mos co­le­gas de classe nem nada. Es­tu­dá­va­mos na mesma es­cola, ape­nas isso.
 – Pois bem, con­ti­nue.
 – Vou pu­lar os por­me­no­res, sim? O modo como nos co­nhe­ce­mos e nos apro­xi­ma­mos…
 – Está certo…
 – Ocorre que na­quela tarde, de­pois das au­las, já na saída da es­cola, ela me pu­xou pelo braço e vi­e­mos an­dando nesta di­re­ção. Es­tava frio e ca­mi­nhá­va­mos bem pró­xi­mos, tal­vez ins­tin­ti­va­mente.
 – Vo­cês se sen­ta­ram aqui?
 – Sim, já es­tá­va­mos sen­ta­dos quando meu co­ra­ção co­me­çou a dar uns tran­cos tão for­tes que eu pre­ci­sava dis­far­çar meu tre­mor. Por al­gum mo­tivo, não sei qual, eu sa­bia que ela to­ma­ria a ini­ci­a­tiva de se de­cla­rar a mim, e isso me ator­men­tava bas­tante, eu me sen­tia um co­varde por não ter sido eu o su­jeito ativo da his­tó­ria.
 – E en­tão…
 – E en­tão ela pou­sou a mão fria no meu braço, olhou bem den­tro dos meus olhos e sus­sur­rou que pre­ci­sava me di­zer algo muito im­por­tante.
 – E você?
 – Eu não con­se­guia mo­vi­men­tar um dedo, era como se o tempo es­ti­vesse apri­si­o­nado numa grande bo­lha da qual fa­zía­mos parte, ela, eu, o poste e to­dos aque­les in­se­tos que vo­a­vam em torno da lâm­pada e dos nos­sos olhos.
 – Aí ela disse…
 – Sim, aí ela disse.
 – “Eu es­tou apai­xo­nada…”
 – “Eu es­tou apai­xo­nada por aquele seu amigo, você pode me aju­dar?”
 – …
 – …
 – E de­pois?
 – Não sei bem o que eu disse a ela, você já sabe. Quando ela saiu, eu não sen­tia mais frio, os in­se­tos não me in­co­mo­da­vam mais, es­ta­vam to­dos vo­ando em re­dor da luz, não ha­via mais luz em mim, só uma es­cu­ri­dão.
 – E de­pois?
 – Você sabe, não houve de­pois.
 – Foi na­quela mesma noite que você…
 – Sim, foi, você sabe disso tam­bém.
 – Ao me­nos você teve a chance da es­co­lha…
 – Este é ou­tro mo­tivo pelo qual não re­pe­ti­rei mais a his­tó­ria. Você se torna pa­té­tico, como uma mo­ci­nha de­sam­pa­rada.
 – Ah! Ah! Ah! É ver­dade. Va­mos en­tão, va­mos as­sus­tar aque­les na­mo­ra­dos fol­ga­dos tran­sando ali den­tro do carro…
 – Va­mos sim!
 – Bu­u­u­u­uuu!
 – Bu­u­u­u­uuu!

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