Contos

Meu avô prendeu Hitler

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013 Texto de
Uma das últimas aparições de Hitler

Uma das úl­ti­mas apa­ri­ções de Hi­tler

Para Ta­ran­tino
e He­mingway

Con­tam mui­tas his­tó­rias so­bre a La­goa Seca. E tam­bém so­bre Hi­tler. Há quem não acre­dite de jeito ne­nhum nas ver­sões so­bre sua morte no mo­mento em que ele viu que a vaca ti­nha ido para o brejo. E há tam­bém quem não acre­dite numa la­goa seca.

Mas, afi­nal, a his­tó­ria do mundo é cons­truída so­bre crença e des­crença. Aí é que está o mis­té­rio de tudo. A graça da vida. Crer ou não crer, eis a ques­tão, como es­cre­veu Sha­kes­pe­are, mas in­fe­liz­mente, como to­dos sa­bem, a pri­meira im­pres­são de “Ham­let” foi feita por um bê­bado que tro­cou al­gu­mas pa­la­vras e aí já era tarde de­mais. Quase sem­pre é mais fá­cil mu­dar o ori­gi­nal do que as có­pias que es­vo­a­çam mundo afora.

Pouco tempo de­pois de a Ale­ma­nha cair, no meio do sé­culo pas­sado, meu avô le­van­tou numa ma­nhã como qual­quer ou­tra e, como sem­pre fa­zia, foi ao paiol bus­car al­gu­mas es­pi­gas de mi­lho para tra­tar seu ca­valo de es­ti­ma­ção. Ao abrir a porta do cer­cado de ma­deira, deparou-se com uma cena in­só­lita.

Con­tava mi­nha avó que, da co­zi­nha, ela ou­viu sua ex­cla­ma­ção: “¡me cago en la puta ma­dre!”. Meu avô era es­pa­nhol.

Di­zem – pois eu ainda não ha­via sido pro­du­zido pe­las gô­na­das do meu pai – que lá se en­con­trava ele, num canto, como se es­ti­vesse en­cur­ra­lado. “Yo no creo en bru­jas, pero que las hay las hay”, te­ria dito meu avô quando atrás dele mi­nha avó che­gava com o pau de ma­car­rão, as­sus­tada que ha­via fi­cado com o as­som­bro do ma­rido.

“¡Vir­gem san­tís­sima!”, assustou-se ela tam­bém. “¿No es la des­gra­cia del mundo?” Mi­nha avó não era es­pa­nhola e não se im­por­tava em mis­tu­rar os idi­o­mas.

Al­guns sons inin­te­li­gí­veis para meus avós saí­ram da­quele canto, mas como eles não en­ten­diam ale­mão, a his­tó­ria não pode re­gis­trar essa pas­sa­gem de­ta­lha­da­mente.

Es­tu­pe­fa­tos, am­bos per­ma­ne­ce­ram em si­lên­cio por meio mi­nuto.

“Me voy a bus­car la ca­ra­bina”, tro­ve­jou por fim o se­nhor Bartho­lo­meu. E re­al­mente já ti­nha vi­rado as cos­tas e dado dois pas­sos na di­re­ção da casa, quando a dona Sal­va­dora o se­gu­rou pelo braço. “¡Tran­quilo, hom­bre!”, disse ela. “¿No es­tas vi­endo que isto no iras a lu­gar nin­guno, no iras a nada?” E ela ti­nha ra­zão.

Se­gundo o li­vro “Os grãos de Hi­tler” (Ed. Afonso Pena), que o mesmo bispo que mu­dou o bis­pado de Ca­fe­lân­dia para Lins man­dou quei­mar, de au­to­ria do his­to­ri­a­dor S.L. Bento, há tes­te­mu­nhas ocu­la­res de um avião da en­tão der­ro­tada força aé­rea alemã so­bre­vo­ando a zona ru­ral de Ca­fe­lân­dia na tarde ime­di­a­ta­mente an­te­rior à ma­nhã que meu avô disse “me cago en la puta ma­dre” no paiol.

Pro­va­vel­mente – e esta é ape­nas uma su­po­si­ção em­pí­rica, sem qual­quer va­lor his­tó­rico – “la des­gra­cia del mundo” fora jo­gada de pa­ra­que­das so­bre o sí­tio onde meu avô e os fi­lhos dele cul­ti­va­vam café, lo­ca­li­zado no bairro La­goa Seca. Tam­bém pro­va­vel­mente, de­pois de ava­liar quais se­riam as me­lho­res pos­si­bi­li­da­des, o paiol aca­bou sendo um lu­gar ra­zoá­vel para ser­vir de es­con­de­rijo até que uma boa alma pu­desse in­ter­vir. Ah! Ah! Ah!

Bem, após con­fa­bu­la­rem, meu avô e mi­nha avó de­ci­di­ram trancá-lo no paiol até que che­gas­sem a uma con­clu­são a res­peito do que fa­riam. Entregá-lo à po­lí­cia lo­cal? Pendurá-lo no mi­lha­ral para ser­vir de es­pan­ta­lho? Quei­mar o café e mon­tar um circo para apre­sen­tar o mons­tro ao vivo? Aproveitá-lo para fa­zer sa­bão? En­tre­tanto, en­quanto as inú­me­ras hi­pó­te­ses eram ava­li­a­das, a na­tu­reza se en­car­re­gou de tra­çar o des­tino dos en­vol­vi­dos no epi­só­dio. Sim, o des­tino não só dele, mas de to­dos os en­vol­vi­dos. Por­que meus avós tam­bém aca­ba­ram, de­pois, ad­mi­tindo um para o ou­tro que a me­lhor so­lu­ção foi re­al­mente a que eles não pre­ci­sa­ram pen­sar.

E che­gou a ma­nhã se­guinte.

“¡Me cago em la le­che!”, ex­cla­mou meu avô, que à frente da mi­nha avó en­trou no paiol tão logo a cla­ri­dade dos pri­mei­ros raios so­la­res pe­ne­trou as frin­chas da rús­tica cons­tru­ção. Atrás dele, erguendo-se nas pon­tas dos pés para ob­ser­var por cima dos om­bros do ma­rido, a dona Sal­va­dora não acre­di­tou no que viu. “Yo tam­bién”, sus­sur­rou he­si­tante den­tro do ou­vido do meu avô. 

A cena que am­bos tes­te­mu­nha­vam po­de­ria en­lou­que­cer al­guém que es­ti­vesse so­zi­nho e, por­tanto, não pu­desse con­tar com a cum­pli­ci­dade de um se­me­lhante.

Aqui é pre­ciso dar um bre­que.

Ha­via na­quela época gran­des ra­to­ei­ras que du­rante a noite eram le­va­das para pon­tos es­tra­té­gi­cos dos sí­tios e fa­zen­das com o ob­je­tivo de com­ba­ter a ine­vi­tá­vel ação no­turna dos ra­tos. Para quem mora nas gran­des ci­da­des – ou mesmo nas pe­que­nas, hoje em dia tanto faz – é bom aler­tar so­bre esta pa­la­vra: rato. 

Os ra­tos da época tal­vez ro­las­sem de rir, co­çando a bar­riga com as gar­ras, se pu­des­sem, por uma má­gica do tempo, ter visto seus des­cen­den­tes, po­bres ca­mun­don­gos que fo­gem de uma vas­sou­rada (claro que aqui não me re­firo às ra­ta­za­nas que vi­vem nos es­go­tos e nos rios po­dres dos gran­des cen­tros – certa vez, vi uma que só o rabo me me­teu medo). 

En­fim, vol­tando aos ra­tos: um dos pon­tos es­tra­té­gi­cos fi­cava no paiol, onde as es­pi­gas de mi­lho ser­viam como um belo ban­quete no­turno para a ra­tai­ada toda. 

Eram ani­mais ta­lu­dos, como se hou­vesse para eles aca­de­mias, tô­ni­cos po­de­ro­sos, bom­bas, mouse trai­ning etc. As enor­mes ra­to­ei­ras os pren­diam du­rante a noite para que fos­sem mor­tos na ma­nhã se­guinte. Não se tra­tava de ar­ma­di­lha sim­ples, da­que­las que um pe­queno pe­daço de queijo atrai o ca­mun­don­gui­nho e so­bre o pes­coço raquí­tico dele desce num ba­que o arame de­sar­mado por ele pró­prio ao pi­sar no ferro. Nada disso. 

Uma en­ge­nhoca besta dessa não fun­ci­o­na­ria com “aque­les” ra­tos. Se­ria pre­ciso uma viga de ferro para matá-los. En­tão, utilizava-se um cer­cado de arame. Meio queijo ou um queijo in­teiro aguar­dava o mons­tro lá den­tro. E quando ele ul­tra­pas­sava o li­miar da por­ti­nhola, esta se fe­chava. Efi­ci­ên­cia to­tal, a não ser quando o ga­ro­tão es­tava acima do peso e não ca­bia no vão. Nesse caso, a por­ti­nhola não fe­chava e per­mi­tia que ele re­tro­ce­desse ileso.

Fim do bre­que. Se­gue a ba­te­ria.

“¡No es po­si­ble!”, disse mi­nha avó com os olhos ar­re­ga­la­dos, agarrando-se tanto ao meu avô que quase se ex­ci­ta­ram den­tro do paiol. 

O caso era este: pos­si­vel­mente hor­ro­ri­zado com seus com­pa­nhei­ros de quarto e com toda cer­teza es­fo­me­ado (por­que, no ca­lor das dis­cus­sões so­bre que al­ter­na­tiva ado­tar e pre­o­cu­pa­dos em iso­lar o paiol da cu­ri­o­si­dade dos fi­lhos, o se­nhor Bartho­lo­meu e a dona Sal­va­dora sim­ples­mente se es­que­ce­ram de le­var co­mida ao hós­pede), lo hijo de una gran puta meteu-se, ele mesmo, den­tro de uma das ra­to­ei­ras. Den­tro de uma das ra­to­ei­ras!

Narra o his­to­ri­a­dor S.L.Bento em seu li­vro pros­crito: “o que os si­ti­an­tes, me­ei­ros, co­lo­nos e de­mais mo­ra­do­res da zona ru­ral da La­goa Seca não com­pre­en­diam era como um ser hu­mano po­de­ria, mesmo lan­çando mão de to­dos os ma­la­ba­ris­mos pos­sí­veis e mesmo tendo sido a en­ge­nhoca cons­truída para apa­nhar ra­tos des­co­mu­nais, como um ser hu­mano po­de­ria acomodar-se em seu in­te­rior”.

No mesmo ca­pí­tulo, en­tre­tanto, o his­to­ri­a­dor faz alu­são a uma ex­pli­ca­ção ra­zo­a­vel­mente sen­sata para a cha­rada. “Di­zem que anos de­pois, quando per­gun­tada a res­peito do de­ta­lhe por cu­ri­o­sos, dona Sal­va­dora er­guia as mãos para o alto e, vi­si­vel­mente con­tra­ri­ada, pro­nun­ci­ava em alto e bom som: ‘¡Ai, Dios mío! Como si fu­era hom­bre lo gu­sano’. “

No fim das con­tas, não ha­via me­lhor lu­gar para ele do que aquele, con­cluí­ram meus avós. E lá o dei­xa­ram, até que um dia ama­nhe­ceu morto. 

É im­por­tante di­zer que boa parte dos his­to­ri­a­do­res ca­fe­lan­den­ses recusa-se a acei­tar o epi­só­dio como ob­jeto de es­tudo. Para eles, tudo não passa de su­po­si­ções, bo­a­tos e sen­sa­ci­o­na­lismo. Num dos in­for­ma­ti­vos da OPC (Or­dem dos Pes­qui­sa­do­res da Grande Ca­fe­lân­dia), há um texto pu­bli­cado há al­guns anos por um dos in­te­gran­tes da di­re­to­ria da en­ti­dade, o tam­bém pes­qui­sa­dor A.M.Graneiro, co­lega de S.L.Bento, mas de ou­tra cor­rente de pen­sa­mento.

Diz ele a certa al­tura do ar­tigo: “Não se trata de du­vi­dar da pa­la­vra ou da sa­ni­dade da­que­les que to­ma­ram como fato ve­rí­dico um lapso da his­tó­ria, como tan­tos ou­tros. Mas é ne­ces­sá­rio aler­tar aos de­sa­vi­sa­dos que nos anos qua­renta, por toda a zona ru­ral do mu­ni­cí­pio, eram co­nhe­ci­das a fama e as fa­ça­nhas da­quele ani­mal ro­e­dor que, mesmo ca­çado por le­giões de si­ti­an­tes e fa­zen­dei­ros, in­sis­tia em as­sal­tar paióis, tu­lhas e ce­lei­ros du­rante a noite, e que por sua in­crí­vel as­tú­cia foi ape­li­dado de ‘Zor­rato’. Sabe-se tam­bém que, tão logo a fi­gura do di­ta­dor ale­mão tornou-se co­nhe­cida no Bra­sil, Zor­rato, por sua es­tra­nha fi­si­o­no­mia e seu fa­bu­loso bi­gode, pas­sou a ser cha­mado de ‘Hi­tler­rato’. Por­tanto, cau­tela e canja de ga­li­nha não fa­zem mal a nin­guém, nem mesmo aos ra­tos. Já a Hi­tler, não sei di­zer”.

Há re­al­mente quem en­tenda a pas­sa­gem his­tó­rica desse modo. E muito pro­va­vel­mente a po­lê­mica per­du­rará até que não haja mais ra­tos nem ho­mens no mundo, em­bora nesse caso ainda seja pos­sí­vel que al­gum novo Hi­tler e as ba­ra­tas fi­quem para con­ti­nuar ali­men­tando a dis­cus­são.

O que eu sei é que o êxodo ru­ral e suas con­sequên­cias co­la­bo­ra­ram para que a pas­sa­gem fosse, aos pou­cos, es­que­cida ou des­vir­tu­ada, transformando-se às ve­zes em pi­a­das gro­tes­cas de ig­no­ran­tes pouco afei­tos à pre­ser­va­ção da his­tó­ria.

Sei tam­bém que quase no fim da vida, meu avô es­tava na ci­dade fa­zendo com­pras num sá­bado e o dono do ar­ma­zém per­gun­tou a ele: “Seu Bar­tolo, eu acre­dito no se­nhor, mas me diga uma coisa: onde foi pa­rar o corpo?”. 

En­quanto pe­dia para que o bal­co­nista acres­cen­tasse um saco de ar­roz à sua com­pra, meu avô ti­rou os ócu­los e disse em por­tu­guês: “Para que re­vi­rar­mos lixo, meu amigo? Saiba que de­pois que ho­mens e ra­tos mor­rem seus cor­pos não ser­vem mais para nada, tanto faz que se­jam ho­mens ri­cos ou ra­tos po­bres”. E, em es­pa­nhol, acres­cen­tou: “Hay que to­mar la mu­erte como si fu­era as­pi­rina”.

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