Contos

No meio-fio

sábado, 23 de fevereiro de 2013 Texto de

Du­rante todo o tempo em que per­ma­ne­ceu dei­tada, Fla­vi­nha não ti­rou os olhos da pe­quena planta, um pe­zi­nho raquí­tico que apa­ren­tava um resto de can­teiro aban­do­nado. O caule fino como um pa­lito de fós­foro, três fo­lhas mur­chas vi­ra­das para o chão feito bo­cas tris­tes e, pa­ra­do­xal­mente, a flor des­pon­tando fes­tiva, como se o ra­qui­tismo dali para baixo não fosse com ela.

Fla­vi­nha sentiu-se bem com a com­pa­nhia. Olhando para a planta que de se­gun­dos em se­gun­dos os­ci­lava ao sa­bor do vento, para sua per­sis­tên­cia e ca­pa­ci­dade de so­bre­vi­ver à beira da sar­jeta, pró­ximo a um bu­eiro, de­baixo da po­lui­ção e es­ca­pando de pe­des­tres de­sa­ten­tos, olhando para aquele ser des­pro­te­gido de to­das as for­mas e ainda as­sim vivo, sen­tiu uma grande força den­tro de si. 

 – Você está bem? – perguntou-lhe o pa­ra­mé­dico.

– Pa­rece que não sinto as per­nas.

E de fato não as sen­tia. So­freu uma grave le­são ao ser atro­pe­lada na faixa de pe­des­tres por um bê­bado que fu­giu. Pas­sou me­ses no hos­pi­tal e na fi­si­o­te­ra­pia, até que se re­cu­pe­rou e vol­tou a an­dar.

– Va­mos dar uma volta de carro – pe­diu ao na­mo­rado, um es­tu­dante de en­ge­nha­ria com quem es­tava junto ha­via dois anos.

– Onde?

– Não in­te­ressa, vai! 

Fla­vi­nha no fundo não sa­bia se o amava de ver­dade, mas, ape­sar da­que­las mú­si­cas que ou­via, ele a tra­tava como uma prin­cesa, era bom de cama e seus pais o acei­ta­vam bem.

Fla­vi­nha tam­bém não sa­bia por que es­tava indo para o lo­cal do aci­dente, mas no ca­mi­nho, em si­lên­cio, gos­tou de se lem­brar da­quela flor­zi­nha que nem o nome ela sa­bia.

– En­costa ali, tá? – disse ao en­ge­nheiro.

– Pra quê?

– Só en­costa e cala a boca, por fa­vor!

Quando che­ga­ram ao lo­cal, não viu qual­quer si­nal da planta. Ha­viam pin­tado a faixa de pe­des­tres, si­na­li­zado me­lhor o cru­za­mento e o meio-fio es­tava bem limpo. Até um cesto de lixo de me­tal fora ins­ta­lado ali, bem em cima de um tre­cho da cal­çada onde um vân­dalo qual­quer jo­gara fora, pos­si­vel­mente de um carro em mo­vi­mento, uma la­ti­nha de cer­veja.

Pro­cu­rando a pe­quena flor, vas­cu­lhando sem su­cesso os dois la­dos da faixa, como se hou­vesse a pos­si­bi­li­dade de ter er­rado o lo­cal, Fla­vi­nha foi to­mada pela amarga. Um ar­dor lhe con­su­miu a boca do estô­mago.

– Que foi?

– Nada, bo­ba­gem…

Vol­ta­ram al­guns me­tros e en­tra­ram no carro no­va­mente. Quando pas­sa­ram so­bre a faixa de pe­des­tres, Fla­vi­nha con­tem­plou o va­zio an­te­ri­or­mente ocu­pado por sua raquí­tica com­pa­nheira da­quele mo­mento dra­má­tico de sua vida. Mas agora a amar­gura ha­via de­sa­pa­re­cido com­ple­ta­mente. Por­que tal­vez – pen­sava com um sor­riso quase im­per­cep­tí­vel nos lá­bios – aquela flor­zi­nha sem nome te­nha nas­cido (e vi­vido!) ape­nas para mim.

Na ave­nida, Fla­vi­nha sentia-se tão leve que fe­chou os olhos e teve a im­pres­são de le­vi­tar, ta­ma­nha era a sen­sa­ção de bem es­tar. Mesmo com a mú­sica idi­ota que o na­mo­rado acom­pa­nhava dando so­qui­nhos no vo­lante.

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