Crônicas

Crônica de um sonho sobre o pênis do meu cachorro

segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2013 Texto de

Eu sou um ca­ra cu­jo so­no é fei­to de so­nhos. São mui­tos so­nhos nu­ma noi­te só. Eu até os di­vi­do em cur­tas, lon­gas, mi­nis­sé­ri­es e no­ve­las in­ter­mi­ná­veis (que me acom­pa­nham du­ran­te anos e anos). Es­pe­ro sin­ce­ra­men­te que o so­nho da noi­te pas­sa­da te­nha si­do ape­nas um cur­ta. E que nun­ca o di­re­tor dos meus so­nhos pen­se na pos­si­bi­li­da­de de trans­for­má-lo em mi­nis­sé­rie ou no­ve­la.
Foi as­sim:
che­guei a uma far­má­cia com a re­cei­ta de um ve­te­ri­ná­rio nas mãos. Em­bo­ra sem co­nhe­cê-lo no so­nho, eu ti­nha um ca­chor­ro. Ma­cho. Era pa­ra o far­ma­cêu­ti­co fa­zer uma in­je­ção que se­ria apli­ca­da no pê­nis do meu ca­chor­ro. Coi­sas de so­nho, pois o cor­re­to se­ria o pró­prio ve­te­ri­ná­rio apli­car. Bom, mas foi ape­nas um so­nho.
- Pa­ra que é a in­je­ção? – per­gun­tou-me o far­ma­cêu­ti­co, sem des­cru­zar os bra­ços, atrás de uns des­ses ócu­los que pa­re­cem ter si­do fei­tos com fun­do de gar­ra­fa.
- Não sei – eu res­pon­di. – Só sei que é pa­ra o pê­nis.
- Mas ser­ve pa­ra quê? – ele in­sis­tiu, na mes­mís­si­ma po­si­ção, ob­ser­van­do sem to­car a re­cei­ta so­bre o bal­cão.
- Não sei – re­pe­ti. – A re­cei­ta de­ve di­zer.
Ele me olhou por al­guns se­gun­dos e co­me­çou a rir.
- Vo­cê já viu al­guém en­ten­der le­tra de mé­di­co?
- E o que eu fa­ço en­tão? – co­me­cei a fi­car pu­to com aque­la pos­tu­ra ri­dí­cu­la do far­ma­cêu­ti­co.
- Vo­cês aí – ele cha­mou dois su­jei­tos que mal ca­bi­am de­bai­xo do te­to da far­má­cia. – Ve­nham cá.
Co­mo em so­nho tu­do é es­qui­si­to, ima­gi­nei que os ca­ras fos­sem tra­du­to­res de re­cei­tas ou al­go do gê­ne­ro.
- Le­vem-no! – ele or­de­nou aos dois, apon­tan­do o in­di­ca­dor que num se­gun­do tri­pli­cou de ta­ma­nho em mi­nha di­re­ção.
Es­per­ne­an­do, chu­tan­do o ar, gri­tan­do fei­to lou­co, fui le­va­do pe­los bru­ta­mon­tes a uma sa­la nos fun­dos da far­má­cia. Pa­ra fa­ci­li­tar o tra­je­to, eles me bo­ta­ram de ca­be­ça pa­ra bai­xo e ca­da um me se­gu­rou por uma per­na. Com a ca­be­ça ren­te ao chão, vi as mar­gens do cor­re­dor que le­va­va aos fun­dos chei­as de re­cei­tas ve­lhas ras­ga­das, in­je­ções pin­gan­do san­gue, tra­pos en­char­ca­dos de subs­tân­ci­as in­tra­du­zí­veis e coi­sas do ti­po.
Ce­na se­guin­te: eu es­ta­va dei­ta­do e pre­so a uma me­sa, lu­zes for­tes nos meus olhos qua­se me ce­gan­do, tor­nan­do tu­do à mi­nha vol­ta tão cla­ro que eu não po­dia en­xer­gar.
- Va­mos re­sol­ver seu pro­ble­ma – apa­re­ceu de re­pen­te, em meio aque­le cla­rão to­do, o far­ma­cêu­ti­co. A ca­ra de­le es­ta­va tão pró­xi­ma da mi­nha que eu via a cam­pai­nha no fun­do de sua gar­gan­ta.
- O pro­ble­ma não é meu, seu ma­lu­co! – gri­tei com to­das as mi­nhas for­ças. – A in­je­ção é pa­ra meu ca­chor­ro.
- To­dos re­a­gem as­sim – ele co­men­tou com ab­so­lu­ta in­di­fe­ren­ça com al­guém que eu não pu­de ver ao seu la­do.
- O que vo­cê vai fa­zer? – eu per­gun­tei qua­se cho­ran­do.
Ele se afas­tou um pou­co e co­me­çou a rir. Quan­do vol­tou a se apro­xi­mar, abriu a bo­car­ra e ti­rou a lín­gua pa­ra fo­ra, mas não era lín­gua. Era um pê­nis cu­ja glan­de não era uma glan­de, e sim uma in­je­ção.
Acor­dei da­que­le mo­do que se acor­da de um pe­sa­de­lo, achan­do que es­ta­va gri­tan­do sem, no en­tan­to, es­tar. Pu­ta que o pa­riu! Pre­fi­ro mui­to mais aque­la no­ve­la em que sou um guer­ri­lhei­ro lu­tan­do con­tra o go­ver­no dés­po­ta de um país la­ti­no qual­quer. Na­que­le so­nho, ba­las ras­pam mi­nha ca­be­ça, ca­nhões se vol­tam con­tra mim, gra­na­das ex­plo­dem ao la­do da mi­nha trin­chei­ra, vi­dros se es­ti­lha­çam no meu ros­to, um exér­ci­to vem me mas­sa­crar. Mas é só is­so!

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