Crônicas

Sonho com meu pai

quinta-feira, 6 de setembro de 2012 Texto de

Este é meu pai, em 1954, com o ca­mi­nhão car­re­gado de ca­pim para o gado

 

Os so­nhos para mim são quase sem­pre gru­den­tos. Da­que­les que você acorda no meio da noite se per­gun­tando se fo­ram mesmo so­nhos. Houve uma época, por exem­plo, que vivi uma ver­da­deira his­tó­ria épica em que, num país des­co­nhe­cido, eu era um sol­dado lu­tando con­tra um re­gime to­ta­li­ta­rista.

Quase to­das as noi­tes o so­nho con­ti­nu­ava, como em ca­pí­tu­los. Às ve­zes, mi­nha im­pres­são era de es­tar num país da Amé­rica Cen­tral. Ou­tras, no Bra­sil. Nunca che­guei a uma con­clu­são a esse res­peito. De­pois de um tempo, tudo de­sa­pa­re­ceu. Em al­gu­mas noi­tes eu me for­çava a pen­sar na­que­les ce­ná­rios de guerra. Só para ver se o so­nho vol­tava. Mas nada.

En­tre­tanto, nunca dei­xei de so­nhar em ca­pí­tu­los. Ou­tros te­mas vi­e­ram, fi­ca­ram por um tempo e se fo­ram.

Mas há, so­bre­tudo, uma sé­rie que con­ti­nua sem­pre. São so­nhos com meu pai, morto em 1994. Acho que, por car­re­gar eter­na­mente a culpa de não ter pro­cu­rado compreendê-lo me­lhor e, prin­ci­pal­mente, não ter pro­cu­rado me apro­xi­mar dele, ge­ral­mente são so­nhos tu­mul­tu­a­dos, de­sa­gra­dá­veis, so­nhos que vi­ram pe­sa­de­los.

On­tem, con­tudo, ocor­reu algo.

Pela pri­meira vez o so­nho foi bom, pela pri­meira vez acor­dei com aquela sen­sa­ção de le­veza, de uma nos­tal­gia agra­dá­vel.

O re­sumo aqui está: no sí­tio onde mo­rá­va­mos, eu re­gava al­gu­mas man­guei­ras. Eram gran­des man­guei­ras, que re­al­mente exis­ti­ram (ou ainda exis­tem, não sei). Ocorre que eu cui­dava ainda da pri­meira ár­vore e a água já es­tava no fim. Foi en­tão que meu pai apa­re­ceu e me mos­trou um pe­queno vaso que ele se­gu­rava. Nele ha­via uma mi­nús­cula planta. “En­cha o vaso com essa água”, ele me disse, “é o que dá pra fa­zer”.

Sim, era o que dava pra fa­zer. A água mo­lhou a terra em volta da planta. Uma leve brisa re­me­xia as fo­lhi­nhas. Es­ta­vam ver­des e chei­ro­sas.

Esta é a casa onde nasci; à di­reita uma das man­guei­ras que eu re­ga­ria no so­nho

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