Crônicas

Carta ao Guga

terça-feira, 11 de setembro de 2012 Texto de

Gus­ta­vo Du­ar­te, o Gu­ga, olhan­do pa­ra um la­do le­gal que a vi­da vai lhe ofe­re­cer

Bau­ru, 11 de se­tem­bro de 2012

Que­ri­do,

pra di­zer a ver­da­de, não me lem­bro co­mo foi nos­so pri­mei­ro pa­po. Vo­cê era “qua­se uma cri­an­ça”. Mas eu sem­pre gos­tei de “cri­an­ças”. Taí uma das pou­cas coi­sas que eu acho que fiz bem na mi­nha vi­da de jor­na­lis­ta: olhar com ca­ri­nho pa­ra quem es­ta­va co­me­çan­do, bo­tar fé, dar uma chan­ce. Sem­pre gos­tei dis­so. E aí foi que des­co­bri que vo­cê era bom.

Na­que­la épo­ca, es­tá­va­mos no Diá­rio de Bau­ru. Um ti­me for­mi­dá­vel. Já tí­nha­mos o Ju­nião (nos­so Ne­gão; sim, is­so mes­mo, nos­so Ne­gão; e vá pra pu­ta que o pa­riu se al­guém não gos­tar). O Ne­gão, já ge­ni­al, fa­zia de tu­do: char­ge, ilus­tra­ção, qua­dri­nho, be­bia cer­ve­ja co­mo nin­guém... Es­tá­va­mos pre­ci­san­do de mais um des­ses ca­ras que na ho­ra H sal­vam uma edi­ção fra­ca, uma pá­gi­na feia, um dia sem gra­ça. En­tão, vo­cê veio. E nós gos­ta­mos de vo­cê.

Pra di­zer a ver­da­de, vo­cê não era ma­lu­co (co­mo era o Ne­gão). Vo­cê era to­do for­mal. Só fal­ta­va me cha­mar de “se­nhor”. Deus me li­vre! Quan­do olha­va pa­ra seu tra­ba­lho, eu pen­sa­va: “não po­de ser, al­guém es­tá psi­co­gra­fan­do! Es­se me­ni­no é mui­to cer­ti­nho pra is­so!”. Não sei se vo­cê per­ce­beu, mas em al­gu­mas oca­siões eu che­ga­va por trás (no bom sen­ti­do) pa­ra dar uma olha­da no seu tra­ço, pa­ra me cer­ti­fi­car de que era vo­cê mes­mo que fa­zia tu­do aqui­lo.

Ah, que pe­na quan­do tu­do aca­bou. To­do mun­do in­do pra lá e pra cá.

Bom, o fa­to é que so­bre­vi­ve­mos. Aque­le ti­ma­ço es­tá por aí. Mes­mo se­pa­ra­do, sem­pre jo­gan­do com clas­se. De vez em quan­do, um en­con­tro aqui, ou­tro ali. Uma cer­ve­ja. Uma lem­bran­ça. Um uís­que. Uma lá­gri­ma. Um abra­ço aper­ta­do. Ou­tra lá­gri­ma.

Eu sou­be ape­nas ago­ra à noi­te de sua de­mis­são do Lan­ce!

Pra di­zer a ver­da­de, pe­lo que vo­cê re­la­tou no seu blog, seu edi­tor foi um ca­ra dig­no. Ah, meu que­ri­do, se vo­cê sou­bes­se co­mo fui de­mi­ti­do...

Pra di­zer a ver­da­de, não la­men­tei sua de­mis­são. É di­fí­cil ex­pli­car al­go as­sim. Mas não la­men­tei. Às ve­zes, aca­ba­mos nos tor­nan­do, mais do que fun­ci­o­ná­ri­os de de­ter­mi­na­da em­pre­sa (ou, co­mo di­zem ho­je, mais do que “co­la­bo­ra­do­res”), aca­ba­mos nos tor­nan­do pri­si­o­nei­ros. E is­so faz mal.

Pra di­zer a ver­da­de, não sei bem o que di­zer a vo­cê... Se vo­cê es­ta­va es­pe­ran­do um gran fi­na­le, per­doe-me. Só sei di­zer que o Lan­ce! , pra mim, da­qui pra fren­te, só se­rá o Lan­ce (sem ex­cla­ma­ção). E vo­cê, que­ri­do, sem­pre se­rá o Gu­ga! (com ex­cla­ma­ção).

Bei­jo gran­de,

do ami­go Már­cio ABC

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