Impressões

‘Uísque sem gelo’, de Vitor Biasoli

sábado, 1 de setembro de 2012 Texto de

“Ar­dem as mon­ta­nhas so­bre as mi­nhas cos­tas”. As­sim co­meça o conto que dá nome ao li­vro “Uís­que sem gelo” (Edi­tora Mo­vi­mento, 2007), do gaú­cho Vi­tor Bi­a­soli. In­tensa e mor­daz, e de uma sen­si­bi­li­dade des­con­cer­tante, a obra reúne doze his­tó­rias tão bem fun­da­das que a im­pres­são é de um fer­vente cal­dei­rão, bem ao nosso lado, so­bre a brasa, exa­lando aquela leve fu­maça que nu­bla nossa vi­são e aro­mas que cla­reiam nos­sos sen­ti­dos.

Quem leu “Ca­li­bre 22”, de 1999, co­nhece a pro­fun­di­dade do au­tor. É um li­vro de po­e­mas cuja força li­te­rá­ria se re­pro­duz na prosa de “Uís­que”.

Este po­ema, por exem­plo, me dei­xou doido à época e ja­mais me es­queci dele (não exa­ta­mente da or­dem das pa­la­vras, não o de­co­rei, ape­nas o guar­dei no sen­tido mais am­plo de quando apre­en­de­mos algo que nos vara):

Vento frio

Quando meu pai mor­reu
um vento frio que­brou o es­pe­lho
onde meu rosto se re­fle­tia

As car­tas que não es­crevi
fi­ca­ram per­di­das para sem­pre

 

É o que eu mais gosto, em­bora res­peite o po­der do “Ca­li­bre 22”:

Guardo no meu bolso
uma bala ca­li­bre 22
para mo­tivo de ur­gên­cia

Em caso de ne­ces­si­dade
a usa­rei como bi­lhete de vi­a­gem
e irei mor­rer num banco de praça

Mas se tudo cor­rer bem
a usa­rei como lem­brete
da som­bra que me acom­pa­nha

Há al­guns dias, ao con­cluir “Uís­que sem gelo”, num im­pulso bus­quei no­va­mente o “Ca­li­bre 22” para re­ler, ale­a­to­ri­a­mente, seus po­e­mas. E ali está, sem dú­vida, a porta de en­trada para “Uís­que”. Mas esta é ape­nas a opi­nião de um lei­tor, não de um crí­tico. Posso es­tar en­ga­nado, mas foi o que senti.

Os con­tos que reú­nem adul­té­rio, re­la­ções des­gas­ta­das, lem­bran­ças ju­ve­nis, ques­tões po­lí­ti­cas e ou­tros te­mas do co­ti­di­ano car­re­gam con­sigo, como se um en­feite su­til no ca­belo de uma per­so­na­gem ou oculto na tinta das le­tras im­pres­sas, um quê poé­tico que os tor­nam ainda mais atra­en­tes.

Deve ser bom ser po­eta. Por­que quando você es­creve, a po­e­sia vem junto, na­tu­ral­mente. Será que é as­sim mesmo? Não sei. Vi­tor Bi­a­soli me dá essa im­pres­são.

No fim de “Uís­que”, a sen­sa­ção foi de que tam­bém nas mi­nhas cos­tas pas­sa­ram a ar­der as mon­ta­nhas.

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