Crônicas

Nos tempos de home office

quarta-feira, 18 de julho de 2012 Texto de

Desde que mon­ta­mos um grupo de pres­ta­ção de ser­vi­ços na área de co­mu­ni­ca­ção, há me­nos de um ano, a maior parte do meu tra­ba­lho é feita em casa. Essa, mais que uma ten­dên­cia, é a re­a­li­dade que se alas­tra. Mas não é exa­ta­mente do as­pecto mer­ca­do­ló­gico que quero fa­lar. Quero fa­lar que sou bem qua­drado para esse tipo de coisa.

As trans­for­ma­ções da cha­mada vida mo­derna nos pe­gam de cal­ças cur­tas, te­nho que ad­mi­tir. Mui­tas ve­zes acha­mos que te­mos com­pleto do­mí­nio da si­tu­a­ção, mas de­pois des­co­bri­mos que não é bem as­sim. Não ter um co­lega ao lado para fa­zer um co­men­tá­rio ba­nal ou pe­dir uma opi­nião pes­so­al­mente, fi­car um bom tempo sem ou­vir a pró­pria voz, de­se­jar di­zer para al­guém que está com dor de ca­beça ou cha­mar o pes­soal para uma cer­veja no fim do ex­pe­di­ente, a falta disso tudo in­co­moda. Mas não é só isso, no meu caso.

Eu sem­pre fui um cara da­quele tipo “cer­ti­nho”, que pro­cura or­ga­ni­zar sua vida do me­lhor modo pos­sí­vel. E esse com­por­ta­mento mui­tas ve­zes está li­gado a con­ven­ções. Sair de casa e ir para al­gum lu­gar de­sem­pe­nhar sua ati­vi­dade é uma de­las.

Uma coisa que sem­pre me in­co­mo­dou, du­rante toda a mi­nha vida pro­fis­si­o­nal, foi ter que fal­tar ao tra­ba­lho por al­gum mo­tivo. Nunca me senti bem nes­sas cir­cuns­tân­cias. Tive cer­teza disso ainda na ado­les­cên­cia, quando certo dia in­ven­tei uma des­culpa qual­quer para não ir ao tra­ba­lho.

Foi um dos pi­o­res dias da­quela fase. O que se­riam ho­ras para re­la­xar e apro­vei­tar a “folga” se trans­for­ma­ram em ter­rí­veis mi­nu­tos, cujo peso só co­me­çou a sair das mi­nhas cos­tas quando na ma­nhã se­guinte eu es­tava tra­ba­lhando de novo.

Na es­cola, acon­te­cia o mesmo. Até hoje te­nho so­nhos re­cor­ren­tes em que, de al­gum modo im­pe­dido de ir à aula, me vejo sob o de­ses­pero. Acordo como se fosse de um pe­sa­delo. Ainda hoje! 

A ver­dade é que não é fá­cil mu­dar. Falo de no­vas tec­no­lo­gias, de no­vos tem­pos, de uma nova re­a­li­dade, mas no fundo, como diz aquela le­tra do Bel­chior, “ainda so­mos os mes­mos e vi­ve­mos como os nos­sos pais”. Ao me­nos em parte. Ao me­nos eu.

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