Crônicas

Sou irremediavelmente viciado

quinta-feira, 12 de julho de 2012 Texto de

Uma vez, quando ti­nha uns oito anos, sentei-me con­for­ta­vel­mente di­ante de um ar­má­rio de casa, abri as por­tas e de lá sa­quei um vi­dro de xa­rope (se não me en­gano, chamava-se Te­trex ou algo pa­re­cido). Uma co­lher­zi­nha atrás da ou­tra, pas­sei a saboreá-lo. Que de­lí­cia! Quando fui fla­grado, já ha­via en­tor­nado ao me­nos meio tan­que.

Até hoje sou vi­ci­ado em xa­ro­pes. Tanto é que pro­curo não tê-los ao al­cance. On­tem, por exem­plo, ama­nheci com uma ame­aça de res­fri­ado, a gar­ganta ir­ri­tada. Lembrei-me de um vi­dro pela me­tade. Está certo que não agi como na­que­les dis­tan­tes anos 1970, mas acabo de jo­gar o vi­dro no lixo. Va­zio.

Sou um risco quando se trata de ví­cios. Fui vi­ci­ado em bingo (que sau­da­des!), em um san­duí­che de frango des­fi­ado que co­mia to­dos os dias no Fru­tal (pe­quena lan­cho­nete da Ro­dri­gues Al­ves que acho que não existe mais), em Zé Ra­ma­lho, nos três pa­te­tas e no zorro, em truco, em pu­nheta, em au­to­rama, na Liv Ty­ler, em cho­co­late bis, em La­wrence da Ará­bia, em car­na­val, em sa­lame e pão ita­li­ano, em Phi­lip Roth, em pe­la­das de fu­te­bol, em água tô­nica com li­mão fa­ti­ado e gelo, em Clint Eastwood, em ban­dido e mo­ci­nho, numa pro­fes­sora do en­sino fun­da­men­tal, no tra­ba­lho e em tan­tas ou­tras coi­sas…

Claro que al­guns ví­cios às ve­zes vol­tam. Como o do xa­rope. Mas o que gosto mesmo é do ví­cio em coi­sas no­vas. Houve um tempo, por exem­plo, que eu as­sis­tia a South Park, mas não era vi­ci­ado. Agora sou. Em­bora seja um de­se­nho já meio an­tigo, pra mim é um ví­cio novo. To­das as noi­tes, eu paro o que es­tou fa­zendo para ver aque­les ga­ro­tos em epi­só­dios ge­ni­ais.

Cu­ri­o­sa­mente, ape­sar do meu his­tó­rico de vi­ci­ado, nunca fui atraído pe­las dro­gas, mesmo tendo ex­pe­ri­men­tado al­gu­mas. Eu me lem­bro de uma festa nos anos 1980 em que de re­pente me de­pa­rei em meio a vá­rias pes­soas em torno de uma mesa de vi­dro for­rada com car­rei­ras de co­caína. Mas, em­bora par­ti­ci­pando de toda a ani­ma­ção do pes­soal, não me senti atraído por aquilo. Fi­quei por ali ape­nas to­mando uma cer­veja sem apoiá-los ou contestá-los. E tam­bém sem so­frer qual­quer tipo de pres­são.

Acho que ge­ral­mente o ví­cio não é sau­dá­vel. Mesmo no caso de South Park. Por­que so­mos de certo modo do­mi­na­dos por algo que foge ao nosso con­trole. Fi­ca­mos sem o do­mí­nio da si­tu­a­ção. Sem con­di­ções de ar­bi­trar. De se­guir cons­ci­en­te­mente o rumo que es­co­lhe­mos. So­mos ape­nas le­va­dos por um im­pulso cu­jas con­seqüên­cias não po­de­mos an­te­ver fri­a­mente.

Por que es­tou es­cre­vendo so­bre ser vi­ci­ado? Não sei. Acho que ape­nas para fu­gir do ví­cio que quase sem­pre fus­tiga a mente do jor­na­lista: sa­ber onde vai dar seu texto. 

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