Crônicas

Quando morrem as crianças

quinta-feira, 3 de maio de 2012 Texto de

No iní­cio da dé­cada de 1970, perdi um amigo e co­lega de es­cola. Ele de­via es­tar na se­gunda sé­rie. Saiu de casa após o al­moço para ir à aula e no meio da es­trada, que liga a zona ur­bana ao sí­tio onde mo­rava, teve uma pa­rada car­díaca. Foi so­cor­rido, mas não re­sis­tiu.

Foi um dia cho­cante. Nós, os ami­gos, nos reu­ni­mos para ir ao ve­ló­rio. Na época, os cor­pos eram quase sem­pre ve­la­dos em casa. Eu me lem­bro que fa­zia um dia de vento, as­sim como hoje em Bauru. A po­eira da es­trada ba­tia con­tra nos­sos ros­tos as­sus­ta­dos. Mar­cha­mos para lá sem sa­ber di­reito como agir. Éra­mos cri­an­ças de oito ou nove anos de idade.

Em frente ao cai­xão na sala um tanto es­cura ape­nas ilu­mi­nada pe­las ve­las, eu olhei para aquele me­nino co­berto de flo­res e foi a pri­meira vez que des­con­fiei de um mundo ruim em que for­ças abs­tra­tas se man­têm à es­preita, esperando-nos na curva para um bote trai­ço­eiro.

Aquele nosso amigo não fora as­sas­si­nado, não so­frera um aci­dente, não lu­tara con­tra uma ter­rí­vel do­ença. Ele sim­ples­mente ha­via sido le­vado em­bora por uma morte ines­pe­rada, mas de todo modo não vi­ve­ria mais. Não es­ta­ria mais aqui pelo resto de nos­sos dias. 

As­sim tam­bém será com a ga­ro­ti­nha Vi­tó­ria, de ape­nas seis anos de idade, exe­cu­tada e quei­mada em Bauru. Tudo en­ve­lhe­cerá sem que ela possa ser uma das tes­te­mu­nhas.

No caso dela, en­tre­tanto, há algo mais. Algo além de um mundo abs­trato que nos atrai­çoa. No caso dela, tudo é muito claro, em­bora as ra­zões se man­te­nham na obs­cu­ri­dade. É isto: nós so­mos cé­lu­las na imi­nên­cia de mor­rer­mos atin­gi­dos pela força ma­ligna de ou­tras cé­lu­las, como num cân­cer in­cu­rá­vel. Às ve­zes, so­mos as cé­lu­las can­ce­rí­ge­nas.

Du­rante o ve­ló­rio do meu amigo na­quela data dis­tante, a avó dele, tal­vez obe­de­cendo a uma tola tra­di­ção, me fez bei­jar os pés do de­funto. Isso me trau­ma­ti­zou du­rante um bom tempo. 

Hoje, pen­sando na tra­gé­dia de Vi­tó­ria e de tan­tas cri­an­ças ví­ti­mas de uma bru­ta­li­dade ani­ma­lesca de seu pró­prio meio, me sinto com­ple­ta­mente cu­rado de meu pe­queno trauma. De tão mi­nús­culo que o vejo agora. Con­tudo, me sinto do­ente. Por­que, sei, a hu­ma­ni­dade as­sim o é. E, como o as­sas­sino de Vi­tó­ria e de to­das as ou­tras, eu faço parte dela. Ine­xo­ra­vel­mente.

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