Impressões

Patrimônio. De Philip Roth

domingo, 29 de abril de 2012 Texto de

“Senti o cheiro de merda já no meio da es­cada. Quando che­guei ao ba­nheiro, a porta es­tava in­tei­ra­mente aberta e, no chão do cor­re­dor, ja­ziam seu ma­ca­cão e sua cu­eca. Den­tro do ba­nheiro pa­pai es­tava nu, tendo aca­bado de sair do chu­veiro, pin­gando ainda. O cheiro era in­su­por­tá­vel. Ao me ver, quase co­me­çou a cho­rar. Na voz mais des­con­so­lada que ja­mais ouvi, dele ou de qual­quer ou­tra pes­soa, me disse o que não era di­fí­cil de­du­zir: ‘Me ca­guei todo’.”

Acho que o tre­cho acima e toda a sequên­cia dessa pas­sa­gem re­su­mem, do modo mais franco e ho­nesto pos­sí­vel, a es­sên­cia do li­vro “Pa­trimô­nio”, de Phi­lip Roth, re­e­di­tado agora pela Com­pa­nhia das Le­tras.

A obra, lan­çada em 1991, é o re­lato do pe­ríodo dra­má­tico vi­vido pelo pró­prio es­cri­tor ao acom­pa­nhar a luta de seu pai, en­tão com 86 anos, con­tra o tu­mor ce­re­bral que al­gum tempo de­pois o leva à morte.

Já es­crevi no blog que con­si­dero Phi­lip Roth o maior nar­ra­dor vivo. É im­pres­si­o­nante como tam­bém neste li­vro ele con­se­gue per­cor­rer todo o tra­jeto com sim­pli­ci­dade e ho­nes­ti­dade, sem cons­tru­ções mi­ra­bo­lan­tes, mas, ao con­trá­rio, tão sim­ples que nos dei­xam pas­mos.

Ve­jam este tre­cho, que fala da noite em que a mãe de Phi­lip mor­reu e ele fi­cou junto com o pai (tre­cho di­ante do qual é pra­ti­ca­mente im­pos­sí­vel não se emo­ci­o­nar):

“… Após cada qual ha­ver pas­sado pelo ba­nheiro, pu­se­mos o pi­jama e nos dei­ta­mos lado a lado na cama onde ele dor­mira com ma­mãe duas noi­tes an­tes, a única no apar­ta­mento. Apa­gada a luz, pe­guei a mão dele e a se­gu­rei como quem se­gura a mão de uma cri­ança com medo do es­curo. Ele so­lu­çou por um ou dois mi­nu­tos…”

Phi­lip Roth tam­bém con­se­gue, mesmo nessa his­tó­ria tão pun­gente, man­ter seu sar­casmo re­fi­nado. Há pas­sa­gens in­cri­vel­mente en­gra­ça­das, que que­bram de ma­neira pro­vi­den­cial os efei­tos do hor­ror que é con­tra­ce­nar com a morte à es­preita. O ju­deu so­bre­vi­vente do ho­lo­causto que en­trega a Phi­lip os ori­gi­nais do li­vro que quer pu­bli­car pro­ta­go­niza um des­ses mo­men­tos.

À mesa, du­rante um jan­tar, o ho­mem lhe dá os pa­péis. Phi­lip co­meça a ler: 

“Ela es­tava es­fo­me­ada por um ho­mem como só o pode es­tar uma mu­lher de trinta e cinco anos em tempo de guerra. Lavou-me em sua ba­nheira. En­quanto a água es­cor­ria, recostei-me. Como se eu fosse uma lauta re­fei­ção de dez pra­tos, ela avan­çou so­bre meu pê­nis. Meu fi­lho, ela disse, meu fi­lho. Eu nunca ti­nha sido de­vo­rado da­quela ma­neira. Só Ka­trina che­gara perto da­quilo. Olhe para ele, ela disse, é uma ma­ra­vi­lha! Go­zei de novo. Ela go­zou de novo. Go­zei mais uma vez.”

O pai de Phi­lip, sem sa­ber do que se trata, quer por que quer que ele ajude o su­jeito a pu­bli­car o li­vro. De­pois, numa con­versa en­tre os dois, Phi­lip diz ao pai: “É por­no­gra­fia. Sa­bia disso?”. E o pai: “Não sei de nada. Não li nada dele.” “É só foda atrás de foda. Em cada pá­gina. Perto dele pa­reço um be­be­zi­nho de colo.” “É mesmo? Não brinca!” “É isso mesmo, essa aqui chu­pou meu pau, aquela ou­tra me fo­deu, eu ti­nha o maior ca­cete de toda a Ale­ma­nha na­zista.” O pai diz a Phi­lip: “A fi­lha dele está fa­zendo a re­vi­são.” E Phi­lip: “Vai le­var o maior susto.”

É, sem dú­vida, um li­vro fun­da­men­tal para qual­quer fi­lho. Para qual­quer pai. Para aque­les que se dão (ou se de­ram) bem e tam­bém para aque­les que não se bi­cam (ou não se bi­ca­vam). Per­cor­rer com o pai o ca­mi­nho que o ar­ranca do in­ve­já­vel vi­gor fí­sico para atirá-lo a uma vala de so­fri­mento e de­bi­li­dade re­vira as en­tra­nhas do fi­lho. Transforma-o. Vale a pena per­cor­rer o tra­jeto.

Para quem qui­ser sa­ber mais so­bre o li­vro na pró­pria Com­pa­nhia das Le­tras, cli­que aqui

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