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Coca-Cola, clube e aniversário

sábado, 28 de abril de 2012 Texto de

Eu es­tou aí nesta foto, de verde, num Car­na­val no Ca­fe­lân­dia Clube

Sabe qual foi a Coca-Cola mais gos­tosa que eu já to­mei na vida?

Eu cos­tu­mava fa­zer essa per­gunta para a mu­lher da qual hoje sou ex-marido. De­via ser um té­dio para ela. Che­gou a de­co­rar: “Ai, tá…”, ela co­me­çava, “foi a Coca que você be­beu no Ca­fe­lân­dia Clube num do­mingo de Car­na­val”.

Isso mesmo. De­pois da­quele sa­ba­dão irado (rsss), fui à ma­tinê no do­mingo. A gente ia à ma­tinê só para di­zer que não ti­nha nau­fra­gado, que es­tava in­teiro. E, claro, para ver se en­con­trava a me­nina que es­tava a fim etc e tal.

Gar­ganta seca, aquele gosto de fer­ru­gem na boca, a banda man­dando o pau lá no sa­lão, a cri­an­çada pu­lando feito louco… Eu fui ao bal­cão e pedi uma Coca ao Cu­ringa. Era de gar­ra­fi­nha, a me­lhor que há. Não es­sas coi­sas de plás­tico, es­sas coi­sas no­jen­tas de plás­tico…

Ele abriu, ouvi aquele chi­a­di­nho, ouvi a tam­pi­nha ba­ter no chão den­tro do bar, aper­tei o vi­dro para sen­tir a tem­pe­ra­tura. Es­tava trin­cando. An­dei al­guns pas­sos em di­re­ção à porta la­te­ral, que dava (não sei se dá ainda) para as pis­ci­nas.

O do­mingo es­tava ra­di­ante. O piso, a grade que cir­cun­dava as pis­ci­nas, a água azu­lada pelo re­flexo dos la­dri­lhos, os mu­ros, os cor­pos ver­me­lhos, bron­ze­a­dos, bran­que­los, ne­gros, ama­re­los…

Vi­rei com calma aquela Coca. Senti o lí­quido bor­bu­lhar na gar­ganta, um pra­zer in­tra­du­zí­vel. O sol lá em cima. O céu azul. A banda mar­te­lando ao fundo. Paramparamparamparam…pararararammmm. Eu po­dia ou­vir mi­nha glote… glub, glub, glub… Sei lá, nunca mais es­queci aquela Coca.

Hoje é ani­ver­sá­rio do Ca­fe­lân­dia Clube. Tudo bem, quem é ca­fe­lan­dense sabe que o Ca­fe­lân­dia Clube reu­niu a elite da ci­dade nos áu­reos tem­pos. Por exem­plo, no Car­na­val, ha­via três fai­xas so­ci­ais muito cla­ras: no Ca­fe­lân­dia Clube ia a classe alta (va­mos man­ter as­sim a no­men­cla­tura, que era a no­men­cla­tura na época), no Kai­kan ia a classe mé­dia, o pes­soal que não era só­cio do Ca­fe­lân­dia Clube e que sa­bia que o Kai era uma de­lí­cia, e na Pa­nela ia quem não ti­nha grana e tam­bém (va­mos dei­xar a hi­po­cri­sia de lado) os cha­ma­dos bis­ca­tei­ros… ahahahhaha. 

Mas o de­ta­lhe é que, de al­gum modo, o Ca­fe­lân­dia Clube reu­niu a mai­o­ria das pes­soas. Fosse nos bai­les ou nas ma­ti­nês (isso em ter­mos de Car­na­val). Hoje, sin­ce­ra­mente, não sei como está a coisa.

Bom, mas vol­tando à Coca. Acho que aquela Coca re­pre­sen­tou um mo­mento, uma época em que eu gos­tava muito do Ca­fe­lân­dia Clube. Isso foi lá pelo fim dos anos 1980. Eu acre­dito que para muita gente, para mui­tos ca­fe­lan­den­ses como eu, o Ca­fe­lân­dia Clube tam­bém tem uma re­pre­sen­ta­ção im­por­tante na me­mó­ria.

Dia des­ses, eu es­tava ten­tando re­lem­brar quan­tas me­ni­nas eu bei­jei no Ca­fe­lân­dia Clube. Ima­gine quan­tos bei­jos, quan­tas pas­sa­das de mão, quan­tos amas­sos, quan­tos es­fre­gas, quan­tas chu­pa­das no pes­coço, quan­tas ex­ci­ta­ções (e sabe-se lá o que mais) não ro­la­ram den­tro da­que­les sa­lões!

Ali, for­mu­la­mos fan­ta­sias, pen­sa­mos lou­cu­ras, fi­ze­mos coi­sas que mar­ca­ram nos­sas épo­cas.

Eu me lem­bro que num ano nós mon­ta­mos um bloco de Car­na­val para par­ti­ci­par do con­curso do clube. Ha­via vá­rios con­cor­ren­tes. To­dos es­ti­lo­sos, cheios de re­cur­sos. O nosso era bem fra­qui­nho, pra di­zer a ver­dade. En­tão, eu bo­lei um plano que pa­re­ceu uma idi­o­tice.

Na en­trada dos blo­cos no sa­lão, os com­po­nen­tes fa­ziam mil pe­ri­pé­cias. Quanto maior o ba­ru­lho, quanto mais cha­mas­sem a aten­ção, me­lhor. Eu pen­sei que não tí­nha­mos como com­pe­tir. E pro­pus en­trar­mos to­dos em si­lên­cio, de ca­beça baixa. Ahahahahhahaha. E de­pois de mui­tas de­li­be­ra­ções e pro­tes­tos lá fora, aca­ba­mos fe­chando ques­tão. En­tra­mos as­sim, qui­e­tos. Bom, ga­nha­mos.

Foi tam­bém no Ca­fe­lân­dia Clube que es­tá­va­mos tão ani­ma­dos que, em de­ter­mi­nado mo­mento, sem per­ce­ber que o baile já ti­nha aca­bado, eu olhei para meu amigo Deco (que mor­reu no ano pas­sado) e disse: “Olhe aquilo, pra que man­ter os re­fle­to­res da qua­dra ace­sos se o baile é aqui den­tro?”. A qua­dra fi­cava no lado oposto das pis­ci­nas. Ha­via ja­ne­las que da­vam para a qua­dra. O Deco olhou lá fora e, após dar mais uma go­lada de uís­que ou de cer­veja, me disse: “Não, ABC, não tem nada aceso, não. É o sol mesmo.”

Pa­ra­béns, Ca­fe­lân­dia Clube. Suas es­tru­tu­ras não vão me ou­vir. Mas eu ainda te ouço. 

No meio do sa­lão do Ca­fe­lân­dia Clube, com a Selma e uma gar­rafa de Malt 90!!!!! 

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