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A imagem, o juiz e o pênalti

quinta-feira, 26 de abril de 2012 Texto de

Na dé­cada de 1990, o juiz de fu­te­bol ama­dor To­ni­nho San­ches marca pê­nalti e é per­se­guido por jo­ga­do­res (Foto de Ota­vio Valle)

Eu sem­pre gos­tei de va­lo­ri­zar a ima­gem por onde pas­sei pro­fis­si­o­nal­mente. Uma das mi­nhas ta­re­fas mais fre­quen­tes foi fa­zer capa de jor­nal. Sem­pre gos­tei de co­me­çar pela fo­to­gra­fia. Sem esse re­curso, a in­for­ma­ção em­po­brece. O pa­pel em­pa­li­dece. O jor­na­lismo pa­dece.

Cu­ri­o­sa­mente, sou pés­simo fo­tó­grafo. Aliás, esse é um mal que me per­se­gue. Sou ruim em coi­sas que gos­ta­ria de fa­zer bem. Fo­to­gra­far é uma de­las (can­tar é ou­tra). Me lem­bro que em 1999 fiz uma vi­a­gem a Ouro Preto e lá, com mi­nha ex-mulher, a jor­na­lista Fer­nanda Vil­las Bôas, fi­ze­mos mui­tas fo­tos.

Na volta – am­bos tra­ba­lhá­va­mos no Diá­rio de Bauru –, en­tre­ga­mos ao Ota­vio Valle, en­tão edi­tor de fo­to­gra­fia do jor­nal, nosso tra­ba­lho ama­dor. As ima­gens se­riam uti­li­za­das numa ma­té­ria de tu­rismo que a Fer­nanda es­cre­ve­ria. Sem sa­ber quem ti­nha ti­rado qual foto, o Ta­tau es­co­lheu, en­tre vá­rias da Fer­nanda, uma ou duas mi­nhas. Me senti or­gu­lhoso pelo meu feito. 

Desse mesmo Ta­tau, re­cebi uma fo­to­gra­fia que ele fez por volta de 1997 e que eu gos­tei muito. Foi num jogo de fu­te­bol ama­dor. O juiz, após api­tar um pê­nalti, é per­se­guido pe­los atle­tas em campo. Eu guar­dei esta foto com ca­ri­nho, en­tre mui­tas ou­tras.

Os fo­tó­gra­fos que tra­ba­lha­ram co­migo, aliás, sem­pre me pre­sen­te­a­vam com uma ou ou­tra ima­gem, al­gu­mas de­las mi­nhas mesmo, da mi­nha fi­lha, de coi­sas que eles sa­biam que eu gos­tava. Volta e meia, che­gava um de­les à mi­nha mesa com uma fo­to­gra­fia.

O pri­meiro com quem tra­ba­lhei foi o Paulo Ro­berto Go­mes, de Ca­fe­lân­dia. Eu e o jor­na­lista Sér­gio Bento tí­nha­mos O Fo­lheto, jor­nal que ro­dá­va­mos numa má­quina grande de Xe­rox. O Paulo ti­rava as fo­tos.

Fo­ram mui­tos os fo­tó­gra­fos (ou fo­to­jor­na­lis­tas ou re­pór­te­res fo­to­grá­fi­cos) com quem tra­ba­lhei: Car­los Tor­rente, Acei­tuno Jr., Éder Aze­vedo, Luiz Tei­xeira, Qui­oshi Goto, An­gelo Pe­rosa, Er­nesto Ro­dri­gues, Su Statho­pou­los, Ru­bens Car­dia, Ota­vio Valle, Sér­gio dos Reis, Jorge Al­berto Ar­ruda, Eli­san­dro As­cari, Joyce Gua­dag­nucci, Erica Junghans, João Cor­reia Fi­lho, Ma­ri­nho San­tos, De­nise Gui­ma­rães, Luís Car­doso, Billy Mao, Cris­ti­ano Za­nardi, Ju­li­ana Lo­bato e por aí vai (te­nho cer­teza de que es­tou es­que­cendo al­gum ou al­guns e já peço des­cul­pas an­te­ci­pa­da­mente). Nem vou ci­tar os que tra­ba­lha­ram co­migo en­quanto fui di­re­tor de re­da­ção do Bom Dia. É muita gente (bri­lhante!) para mi­nha po­bre me­mó­ria.

Mui­tas ve­zes, além das fo­to­gra­fias, as char­ges tam­bém en­tra­vam na dis­puta para fe­char as ca­pas dos jor­nais. Me lem­bro que no Diá­rio de Bauru, onde lan­ça­mos os ge­ni­ais Ju­nião e Guga, fi­ze­mos al­gu­mas ca­pas com char­ges. E no Bom Dia tam­bém, com o tra­ba­lho do Pe­li­cano.

A cada capa feita a par­tir de uma ima­gem grande ou mesmo com a ima­gem to­mando com­ple­ta­mente a capa, eu sem­pre vi­brei muito. Por­que uma ima­gem que sus­tenta a capa de um jor­nal é uma ima­gem e tanto. É uma ima­gem que exis­tiu, tudo bem, mas que um grande fo­tó­grafo ou um puta char­gista ou ilus­tra­dor ou sei lá quem con­se­guiu cap­tar de modo con­vin­cente.

Es­crevi ou­tro dia no Fa­ce­book que tive muita sorte por ter sem­pre en­con­trado óti­mos fo­tó­gra­fos no meu ca­mi­nho pro­fis­si­o­nal (e óti­mos char­gis­tas ou car­tu­nis­tas ou al­guém dessa gente ma­luca que in­venta obras sen­sa­ci­o­nais). Além da cri­a­ti­vi­dade e da marca pró­pria que cada um de­les cra­vava em suas obras, eles cap­ta­vam o que eu que­ria para fa­zer a capa. 

Para uma capa ou para acom­pa­nhar uma re­por­ta­gem, mui­tas ve­zes não basta pro­du­zir uma bela foto. Essa bela foto pre­cisa es­tar co­nec­tada com o clima do jor­na­lismo, com o clima do dia, com o clima do tema. No jor­na­lismo, o fo­tó­grafo não faz uma foto para guar­dar num ál­bum e mos­trar aos ami­gos. Ele faz uma foto para o mundo, para a his­tó­ria, para sem­pre.

Será que é por isso que guar­da­mos as fo­tos? Nós as guar­da­mos por­que elas são para sem­pre? Tal­vez por­que elas car­re­guem con­sigo aquilo que o Wando (sim, aquele!) can­tou em “Moça” (sim, aquela!): as do­bras do tempo. Olhar para uma foto é uma ati­tude das mais sé­rias. Ainda pa­ra­fra­se­ando o Wando em “Moça”: pode até ma­chu­car.

Mas por que al­gu­mas fo­tos se­guem com a gente e um dia aca­bam se ex­pli­cando? A fo­to­gra­fia do juiz de fu­te­bol sendo per­se­guido pe­los atle­tas me foi dada por um amigo, é ver­dade. Mas po­de­ria es­tar per­dida de­pois de apro­xi­ma­da­mente quinze anos. Não está num ar­quivo di­gi­tal. É um pe­daço de pa­pel que em sua es­sên­cia, na ima­gem, não tem qual­quer re­la­ção co­migo. Um pe­daço de pa­pel que fi­cou guar­dado numa pasta, que so­bre­vi­veu aos anos, a uma se­pa­ra­ção (onde umas coi­sas vão, ou­tras fi­cam), às tra­ças, à de­sor­ga­ni­za­ção, às ga­ve­tas etc etc etc. 

Um dia des­ses, no edi­fí­cio onde es­tou mo­rando, en­con­trei no sa­guão de en­trada um su­jeito de ca­be­los bem gri­sa­lhos, muito co­mu­ni­ca­tivo, ba­tendo papo com os por­tei­ros, sor­rindo en­tre uma his­tó­ria e ou­tra. Pen­sei: co­nheço esse cara de al­gum lu­gar. É o juiz da foto! Fu­cei nas mi­nhas pas­tas e a en­con­trei. Man­dei re­pro­du­zir. On­tem, eu a en­tre­guei a ele.

“Já te con­tei a his­tó­ria dessa foto?”, ele me per­gun­tou. Sim, já ha­via me con­tado. A his­tó­ria do pê­nalti. Olhando para a foto, sor­riso es­tam­pado na face, as lem­bran­ças cer­ta­mente sa­cu­di­ram sua me­mó­ria. Encarou-me, con­victo e or­gu­lhoso:

“Mas que o pê­nalti foi ba­tido, foi!”

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