Crônicas

Quando leram a nossa sorte

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012 Texto de

“Bú­zios, car­tas e amar­ra­ção no amor.” Os fo­lhe­tos fo­ram pre­ga­dos na noite pas­sada em um ba­ta­lhão de pos­tes. São tan­tos, um atrás do ou­tro, que você até se con­funde. Tal­vez seja “Bú­zios, tarô e amar­ra­ção no amor” ou “Tarô, car­tas e amar­ra­ção no amor”. Agora me fu­gi­ram o con­teúdo in­te­gral e sua or­dem.

Mas ao ba­ter os olhos, a lem­brança me cha­mou. Certa vez, uma mu­lher co­me­çou a ler a sorte de um amigo meu. Es­tá­va­mos os dois sen­ta­dos com ela à mesa, meu amigo à di­reita e eu à es­querda. “Você vai con­quis­tar muita coisa boa”, co­me­çou, de­pondo so­bre a ma­deira as pri­mei­ras car­tas. “Seus es­tu­dos vão bem”, con­ti­nuou. Olhava para ele a cada nova men­sa­gem das car­tas.

De mi­nu­tos em mi­nu­tos, to­mava um gole de li­cor. A ta­ci­nha es­tava bem em frente. Era só es­ti­car o braço en­quanto a carta di­tava a ela os ru­mos do meu amigo. “Seu tra­ba­lho será re­co­nhe­cido”, sor­riu na di­re­ção dele. “Que bom, não é? Ve­ja­mos o que mais.”

Um ins­tante se pas­sou. Ela le­vou no­va­mente a ta­ci­nha quase va­zia aos lá­bios gros­sos pin­ta­dos de ba­tom ver­me­lho.

“Você terá que lu­tar muito por ela”, avi­sou num tom grave. Mas agora, ines­pe­ra­da­mente, voltando-se para mim. Não para meu amigo, de quem era a sorte lida ali, mas para mim. Olhei para ele, se­gu­ra­mos a ri­sada.

Bú­zios, car­tas e amar­ra­ção no amor. Eu me amarro nes­sas coi­sas.

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