Crônicas

Que venham as ressacas

sexta-feira, 2 de setembro de 2011 Texto de

Sem­pre acon­tece em épo­cas de res­saca no li­to­ral ca­ri­oca. Refiro-me às da orla ca­ri­oca por se­rem as mais pró­xi­mas a mim, as que te­nho opor­tu­ni­dade de as­sis­tir. É um bo­nito es­pe­tá­culo, além de as­sus­ta­dor, ver as on­das in­va­dindo as cal­ça­das, ar­ras­tando o que está à sua frente e dei­xando seu ras­tro de areia quando co­me­çam a amai­nar. Como os olhos de Ca­pitu. Mas re­co­nheço que só é pra­zer para quem está ali de es­pec­ta­dor, como eu, e não para quem perde seu dia de praia ao sol, o qui­os­que, o carro, a bi­ci­cleta ou ou­tro bem.

Numa des­sas res­sa­cas, a que as­sisti de muito longe en­tre fas­ci­nada e ame­dron­tada, cer­ta­mente ar­ma­ze­nei em meu pa­cote cár­mico vá­rios pe­sos para res­ga­tar em ou­tras vi­das, caso elas exis­tam. É que a cada vez que as on­das se re­traíam, de­pois de te­rem in­va­dido e var­rido tudo, eu ima­gi­nava – e de­se­java mesmo ver – cer­tas pes­soas sendo le­va­das para sem­pre ao abismo ma­ri­nho. Como se­ria bom que o mar le­vasse para bem longe de­ter­mi­na­dos ti­pos em­ble­má­ti­cos que po­voam nosso co­ti­di­ano com o único ob­je­tivo de nos cho­car, despertar-nos sen­ti­men­tos ruins, nos pas­sar a perna, nos rou­bar e fazer-nos per­der um tempo ir­re­cu­pe­rá­vel na ten­ta­tiva de cor­ri­gir o rumo da vida, cons­ci­en­te­mente en­tor­tado por eles, pelo po­der que têm em mãos, con­tra o qual não há boa-fé, co­ra­gem ou pas­se­ata que dê jeito.

In­fe­liz­mente ne­nhuma onda gi­gan­tesca ou força como essa me de­vol­ve­ria a paz, o di­nheiro ou a saúde que es­ses ti­pos ao longo de suas vi­das fo­ram rou­bando de cada um de nós ou de to­dos. Por­que os bu­ra­cos nas ro­do­vias nunca se­rão con­ser­ta­dos de­cen­te­mente; as cri­an­ças con­ti­nu­a­rão jo­ga­das nas cal­ça­das, imun­das e do­en­tes, vi­ci­a­das em tudo; as pes­soas ido­sas ou não, que mor­rem em fi­las de hos­pi­tais pú­bli­cos por falta ou atraso no aten­di­mento, nunca res­sus­ci­ta­rão; os ha­bi­tan­tes de re­giões ári­das, que co­mem ca­lango com fa­ri­nha pra fin­gir que es­tão se ali­men­tando, con­ti­nu­a­rão acre­di­tando no pri­meiro im­be­cil adi­poso e cí­nico que lhes pro­me­ter qual­quer mi­ga­lha em troca de voto, e as ví­ti­mas de aci­den­tes de avião, trem, va­gão de me­trô ou fi­lhi­nho de pa­pai que mata por di­ri­gir em­bri­a­gado e que fica solto para cur­tir a vida fora do Bra­sil, ne­nhuma de­las será de­vol­vida às suas fa­mí­lias.

Por­tanto, só me resta de­se­jar não que a terra lhes seja leve, longe de mim esse ca­ri­nho, mas que o mar em res­saca lhes seja bem pe­sado e que os leve para muito longe, já que até os uru­bus o re­jei­ta­riam nos li­xões. Po­bres pei­xes!

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