Trai­ler do fil­maço de Da­vid Lean lan­çado em 1962

Com­prei o DVD do filme “La­wrence da Ará­bia” (Di­re­ção de Da­vid Lean, 1962). Só pra re­ver na hora que eu bem en­ten­der. É um dos meus fil­mes pre­fe­ri­dos, em­bora eles se­jam mui­tos. Mas “La­wrence” tem algo de fa­bu­loso, mis­te­ri­oso, in­tri­gante, algo que sem­pre me atrai para o de­serto do norte da África, onde o te­nente in­glês exerce pa­pel fun­da­men­tal na luta das al­deias ára­bes ali­a­das ao exér­cito bri­tâ­nico con­tra os tur­cos, que na época (a ação se passa du­rante a Pri­meira Guerra Mun­dial) pre­ten­diam ane­xar a Pe­nín­sula Ará­bica ao seu Im­pé­rio Oto­mano.

A obra, ba­se­ada no li­vro au­to­bi­o­grá­fico “Os Sete Pi­la­res da Sa­be­do­ria”, do ofi­cial in­glês T. E. La­wrence, le­vou mui­tos prê­mios, in­cluindo sete ca­te­go­rias do Os­car, en­tre as quais me­lhor filme e me­lhor di­re­tor. Bom, Da­vid Lean me­rece. Sua obra é fan­tás­tica. Além de “La­wrence”, as­sina “A Ponte do Rio Kwai”, “Dou­tor Ji­vago” e “Pas­sa­gem para a Ín­dia”, en­tre ou­tros. É pre­ciso mais? Em “La­wrence”, ele es­cala Alec Guin­ness e o es­pe­ta­cu­lar Anthony Quinn ao lado dos en­tão pro­mis­so­res Pe­ter O’Toole (que in­ter­preta o pro­ta­go­nista) e Omar Sha­rif.

En­fim, as si­nop­ses es­tão aí na in­ter­net para quem qui­ser. Eu aqui só es­co­lho al­gu­mas im­pres­sões so­bre o filme. Eu po­de­ria fa­lar das to­ma­das mag­ní­fi­cas – aliás, uma marca nos épi­cos de Da­vid Lean – que tor­nam o filme um cam­peão em fo­to­gra­fia. Tam­bém po­de­ria co­men­tar a in­crí­vel pro­fun­di­dade que o en­tão jo­vem Pe­ter O’Toole con­se­gue im­pri­mir a seu per­so­na­gem, um ho­mem ex­cên­trico e enig­má­tico cuja prin­ci­pal guerra pa­rece ser a que ele trava con­sigo mesmo, descobrindo-se a cada epi­só­dio ter­rí­vel vi­vido em sua pas­sa­gem pela Ará­bia.

Aliás, um dos gran­des mé­ri­tos da obra é exa­ta­mente este: mais do que um filme so­bre a guerra, é um filme so­bre o ín­timo de cada per­so­na­gem, so­bre suas cren­ças e seu pa­pel nos con­fli­tos bé­li­cos e hu­ma­nos. É im­pres­si­o­nante como Da­vid Lean soube ex­plo­rar tão bem esse as­pecto nos 220 mi­nu­tos do filme (não é um li­vro, onde essa dis­cus­são pode ser apro­fun­dada, é ape­nas um filme, em­bora longo!) Po­de­ria ainda fa­lar so­bre como Anthony Quinn está tão à von­tade em seu pa­pel de lí­der in­te­res­seiro e mer­ce­ná­rio de uma das tri­bos ára­bes. E de mui­tas ou­tras pas­sa­gens mar­can­tes, como o em­bate pro­fundo de olha­res en­tre o ofi­cial La­wrence e o mi­li­tar turco que o tor­tura.

Mas o que eu quero di­zer é ou­tra coisa. É so­bre a mú­sica do filme, a mú­sica que acom­pa­nha as prin­ci­pais pas­sa­gens de La­wrence, a mú­sica com­posta por Mau­rice Jarre (que mor­reu em 2009). Eu não sou ne­nh­num es­pe­ci­a­lista em ci­nema, em mú­sica ou no que quer que seja, já disse isso aqui em ou­tras oca­siões. Po­rém, não te­nho qual­quer re­ceio ou dú­vida ao di­zer que pou­cas ve­zes, ou quem sabe ja­mais, uma mú­sica foi tão bem usada num filme. Não sei se sem ela, se­ria a mesma coisa (pra mim, é claro). A cena em que um dos dois ga­ro­tos ára­bes que se ofe­re­cem para acom­pa­nhar La­wrence como ser­vos es­pera o re­torno de seu amo do ter­rí­vel de­serto, para onde ele vol­tou à pro­cura de um sol­dado do grupo que ha­via se per­dido du­rante a noite, é in­tra­du­zí­vel.

Quando vê La­wrence ainda dis­tante, vol­tando com o ho­mem árabe ines­pe­ra­da­mente salvo das afli­ções de­sér­ti­cas, o ga­roto, in­cré­dulo e co­mo­vido, co­meça a ati­çar seu ca­melo para que o ani­mal siga ao en­con­tro do amo. E é exa­ta­mente aí que a mú­sica acom­pa­nha com per­fei­ção a ve­lo­ci­dade do ca­melo, cres­cendo em ritmo e em emo­ção. Li por es­tes dias um ar­tigo de Ar­naldo Ja­bor em que ele diz ter cho­rado ao ver Cole Por­ter can­tando “Let’s do it” no be­lís­simo filme “Meia-noite em Pa­ris”, de Wo­ody Al­len. Essa é a ma­gia do ci­nema. Fa­zer com que nos aban­do­ne­mos às nos­sas emo­ções sem tra­vas, sem pu­do­res. Eu não sou da­que­les que as­sis­tem ao mesmo filme dez, vinte ve­zes (só para fi­car claro: não te­nho nada con­tra isso), mas acho que já vi “La­wrence da Ará­bia” cinco ou seis ve­zes. E sem­pre na hora em que chega o mo­mento da cena que des­crevi acima não con­sigo con­ter as lá­gri­mas. Ainda não sei o que me faz cho­rar to­das as ve­zes exa­ta­mente nessa cena. Mas con­ti­nuo com es­pe­rança de des­co­brir o mis­té­rio. Por­que ainda vol­ta­rei a ver o filme não sei em quan­tas oca­siões. É que de vez em quando “La­wrence” me chama lá do de­serto.


Ví­deo com a emo­ci­o­nante mú­sica de Mau­rice Jarre

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