Crônicas

O evangelho, segundo a festa gay

segunda-feira, 29 de agosto de 2011 Texto de

Bem à mi­nha frente, um ra­paz de uns de­zoito anos tal­vez e uma ga­rota quem sabe um pouco mais nova se bei­jam con­ti­nu­a­mente; dois ou três pas­sos adi­ante, um cara alto e loiro beija a ore­lha de um ne­gro e os dois dan­çam ao som ani­mado de Preta Gil; muito perto de mim, uma fa­mí­lia que in­clui uma cri­ança de dois anos as­siste ao show; as cri­an­ças se di­ver­tem, os ho­mos­se­xu­ais se di­ver­tem, os he­te­ros­se­xu­ais se di­ver­tem. Eu nunca ha­via ido a uma pa­rada gay. Não por pre­con­ceito, mas ape­nas por ques­tões cir­cuns­tan­ci­ais. Desta vez, pe­guei o fi­nal do evento em Bauru. E o show tam­bém (Preta é uma ótima ani­ma­dora de palco!).

E ali, em meio ao grande pú­blico, em meio à festa, não há como não se per­gun­tar: como é que pode tanta vi­o­lên­cia con­tra gays? O que tanto in­co­moda as pes­soas que se re­vol­tam di­ante de uma re­a­li­dade ab­so­lu­ta­mente hu­mana? Está certo que mui­tas ve­zes so­mos in­cri­vel­mente sur­pre­en­di­dos, quando já acha­mos que não acon­te­cerá mais. Acon­te­ceu co­migo mesmo. Fui usar o ba­nheiro quí­mico e per­gun­tei a um ga­roto se ele fa­zia parte da fila (só ha­via ele na­quela porta). Ele me res­pon­deu que não, es­tava ape­nas es­pe­rando “o na­mo­rado”.

Quando eu ti­nha de­zes­seis ou de­zes­sete anos, um amigo me con­vi­dou para ir à casa dele: não ha­via nin­guém lá na­quele mo­mento e nós po­de­ría­mos fi­car à von­tade. Eu me lem­bro de ter pas­sado o braço em torno do om­bro dele e fa­lado as­sim: “Olha, não sou a fim, veja com ou­tra pes­soa, ok?” Nossa ami­zade con­ti­nuou como an­tes, sem qual­quer en­trave. Mas on­tem, quase três dé­ca­das de­pois, ainda me sur­pre­endi com a res­posta do ga­roto: “Es­tou es­pe­rando meu na­mo­rado”. É uma pe­quena ilus­tra­ção so­bre as im­pli­ca­ções que en­vol­vem o tema. Não é fá­cil para al­guém cri­ado sob pa­râ­me­tros de tra­di­ção ca­tó­lica e ma­chista, como eu, di­ge­rir na­tu­ral­mente trans­for­ma­ções pro­fun­das como essa. É pre­ciso um es­forço ex­tra. É pre­ciso pen­sar que a roda do mundo gira. Pode-se até pen­sar no evan­ge­lho no qual nunca penso:

(Jo 13, 31-33a.34-35) – As­sim que Ju­das saiu, disse Je­sus: “Agora o Fi­lho do ho­mem foi glo­ri­fi­cado e Deus nele. Se Deus foi glo­ri­fi­cado nele, tam­bém Deus o glo­ri­fi­cará em si mesmo e o glo­ri­fi­cará em breve. Fi­lhi­nhos, só por pouco tempo es­ta­rei con­vosco. Eu vos dou um novo man­da­mento: que vos ameis uns aos ou­tros. As­sim como eu vos amei, amai-vos tam­bém uns aos ou­tros. To­dos sa­be­rão que sois meus dis­cí­pu­los, se vos amar­des uns aos ou­tros”.

Fes­tas como a da di­ver­si­dade ser­vem tam­bém para aju­dar a pes­soas como eu. Não, não sou adepto de qual­quer tipo de afronta aos gays. Mas pre­ciso me po­li­ciar con­tra meus pre­con­cei­tos. Pre­ciso com­pre­en­der a mar­cha da hu­ma­ni­dade. Por­que, afi­nal, faço parte dela. E quero conhecê-la por den­tro para que eu mesmo tam­bém possa me co­nhe­cer me­lhor. Fes­tas as­sim são ne­ces­sá­rias para var­rer o lixo do pre­con­ceito que ainda resta no ín­timo da so­ci­e­dade (no meu ín­timo).

E é irô­nico lem­brar que en­quanto ho­mens se bei­ja­vam na ave­nida Na­ções Uni­das, ho­mens ten­ta­vam se ma­tar em torno do es­tá­dio Pru­den­tão, an­tes do maior clás­sico do nosso fu­te­bol (Pal­mei­ras x Co­rinthi­ans). A festa gay foi mais ci­vi­li­zada do que a festa do fu­te­bol. As igre­jas, os bis­pos evan­gé­li­cos, os pa­pas e os ai­a­to­lás pre­ci­sam se pre­o­cu­par mais com as tor­ci­das or­ga­ni­za­das e com a sel­va­ge­ria das ruas. Pre­ci­sam dei­xar em paz quem só quer amar, exa­ta­mente como di­zem cer­tas li­nhas dos li­vros sa­gra­dos.

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