Impressões

‘O museu da inocência’

terça-feira, 23 de agosto de 2011 Texto de

Capa do li­vro edi­tado pela Com­pa­nhia das Le­tras

Aca­bei de ler “O mu­seu da ino­cên­cia” (Com­pa­nhia das Le­tras, 568 pgs.), do turco Orhan Pa­muk, Prê­mio No­bel de Li­te­ra­tura em 2006. Para quem gosta de sa­bo­rear um li­vro com calma, sem pressa de che­gar ao fim, ab­sor­vendo a nar­ra­tiva de modo a acei­tar a ve­lo­ci­dade im­posta pelo au­tor, é um prato cheio. A his­tó­ria de uma im­pres­si­o­nante pai­xão vi­vida pelo pro­ta­go­nista, Ke­mal, um su­jeito de trinta e pou­cos anos que está para se ca­sar mas de re­pente co­meça a mer­gu­lhar num sen­ti­mento que o do­mina com­ple­ta­mente, não po­de­ria ser con­tada de ou­tro modo que não fosse a pas­sos len­tos, com a pa­ci­ên­cia e a per­sis­tên­cia dos aman­tes que não se atro­pe­lam nas ca­rí­cias por causa do de­sejo de che­gar ao clí­max.

Ge­ral­mente não é fá­cil con­tro­lar nosso ím­peto, isso em vá­rios sen­ti­dos. Mui­tas ve­zes mal sa­bo­re­a­mos o prato que pla­ne­ja­mos co­mer, não apro­vei­ta­mos como de­ve­ría­mos a vés­pera de uma festa im­por­tante, fi­ca­mos ce­gos para lan­ces bo­ni­tos do fu­te­bol por­que que­re­mos de­ses­pe­ra­da­mente que nosso time faça um gol logo e se pos­sí­vel o jogo acabe, e claro que­re­mos tanto sa­ciar nosso de­sejo se­xual que aca­ba­mos eli­mi­nando eta­pas pra­ze­ro­sas do pro­cesso. “O mu­seu…” é, além de tudo, um en­si­na­mento para que nos con­te­nha­mos e sai­ba­mos apro­vei­tar ao má­ximo cada se­gundo de nos­sas vi­das.

Em meio às tur­bu­lên­cias po­lí­ti­cas da Tur­quia nos anos 1970 e 1980, Orhan Pa­muk tece uma teia que aos pou­cos vai nos en­vol­vendo numa his­tó­ria de amor da­que­las que du­ram dé­ca­das, mas cer­ta­mente po­de­riam le­var sé­cu­los. Cli­que aqui para ler a si­nopse do li­vro no site da Com­pa­nhia das Le­tras. A nar­ra­ção con­tra­põe tam­bém as acen­tu­a­das di­fe­ren­ças cul­tu­rais e com­por­ta­men­tais da­quela Tur­quia, cujo atraso torna-se la­tente nas pá­gi­nas de “O mu­seu…”, e a Eu­ropa oci­den­tal. Ques­tões como a vir­gin­dade e os com­pro­mis­sos im­plí­ci­tos que a re­la­ção en­tre um ho­mem e uma mu­lher su­gere à so­ci­e­dade são pro­fu­sa­mente de­ba­ti­das no de­cor­rer da nar­ra­tiva. O au­tor, em­bora deixe claro certa des­po­li­ti­za­ção do pro­ta­go­nista, traça um mapa es­cla­re­ce­dor de seu país nos anos em que se passa o ro­mance.

E é ma­ra­vi­lhosa a ma­neira en­con­trada por Orhan Pa­muk para con­tar essa his­tó­ria, atre­lando ao seu de­sen­ro­lar uma grande aula so­bre a im­por­tân­cia dos mu­seus, da his­tó­ria, da me­mó­ria de cada um para que a li­nha mes­tra de cada so­ci­e­dade não se perca no va­zio de sua pró­pria de­sin­for­ma­ção. É atra­vés dos ob­je­tos ma­nu­se­a­dos por seu grande amor que Ke­mal en­con­tra con­forto e força para le­var até o fim seus ob­je­ti­vos na busca da tão es­pe­rada con­quista. Por fim, a li­ção de fe­li­ci­dade di­ante das coi­sas sim­ples da vida, que co­mu­mente cos­tu­ma­mos dei­xar de lado, é uma ver­da­deira po­e­sia no meio de uma prosa que tam­bém vai nos con­quis­tando aos pou­cos, sem pressa, até que nos en­con­tre­mos com­ple­ta­mente sub­ju­ga­dos à ma­es­tria de um dos gran­des es­cri­to­res mun­di­ais.

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