Crônicas

Adeus, Deco: velho amigo irmão

sábado, 20 de agosto de 2011 Texto de

Esta foto é da dé­cada de 1980; es­tou à es­querda ao lado de Eli (en­tão na­mo­rada do Deco) e do pró­prio (à di­reita)

O Deco (com o “é” aberto) mor­reu neste sá­bado. Re­cebi a in­for­ma­ção por volta de meio-dia. Ha­via aca­bado de acon­te­cer. Eu ainda es­tava dei­tado, ou­vindo cair lá fora uma chuva in­ter­mi­tente, uma chuva boa nes­tes dias se­cos. A mo­leza ca­rac­te­rís­tica ao acor­dar­mos em dias as­sim transformou-se em pros­tra­ção do­lo­rida quando do ou­tro lado da li­nha o jor­na­lista Sér­gio Bento me disse que ha­via uma “no­tí­cia brava” vinda de Ca­fe­lân­dia. Mal tive tempo de pen­sar no que po­de­ria ser até que ele me dis­sesse que “o De­qui­nho teve um en­farte ful­mi­nante”. Ele era jor­na­lista nas­cido em Pi­ra­juí, mas vi­via em Ca­fe­lân­dia ha­via mais de qua­renta anos.

Quando as pes­soas mor­rem, a ten­dên­cia é de só fa­lar­mos bem de­las, to­dos sa­be­mos disso. Tal­vez por­que prin­ci­pal­mente os mor­tos te­nham di­reito a esse tipo de de­fesa no úl­timo tri­bu­nal da vida. Quando so­mos ami­gos, en­tão, a coisa fica ainda mais ten­den­ci­osa. Mas, em nome da nossa ve­lha ami­zade, uma ami­zade de quase trinta anos que nos fez em mui­tos mo­men­tos como se fôs­se­mos ir­mãos, vou co­me­çar “fa­lando mal” do meu grande amigo, pri­meiro pro­fes­sor de vida.

O Deco era uma des­sas pes­soas que quando olha­mos a con­si­de­ra­mos “me­tida”, desde seu jeito de an­dar. Ele cir­cu­lava pe­las ruas sem­pre de peito em­pi­nado, ca­beça exa­ge­ra­da­mente er­guida e firme, di­fi­cil­mente olhando para os la­dos. Não era al­guém aces­sí­vel ao pri­meiro que che­gasse. Só de­pois, quando tra­vava al­gum co­nhe­ci­mento, é que ele se tor­nava afá­vel, doce e, dali um tempo, amigo. Amigo de ver­dade.

Em frente ao “Jor­nal de Ca­fe­lân­dia”, quando a sala fi­cava na rua Si­queira Cam­pos, bem no cen­tro da ci­dade, ele cos­tu­mava dar fes­tas me­mo­rá­veis. Con­se­guia fa­zer com que a pre­fei­tura fe­chasse a qua­dra num sá­bado à noite e con­vi­dava os ami­gos e os ami­gos dos ami­gos. Dos fun­dos do jor­nal, vi­nham o chur­rasco e as be­bi­das. Es­ses gran­des even­tos só aca­ba­vam na ma­dru­gada, ge­ral­mente em can­to­rias ou em de­sen­ten­di­men­tos en­tre um ou ou­tro con­vi­dado, que ele, Deco, pron­ta­mente re­sol­via com sua voz grossa e pa­ter­nal.

Sua ge­ne­ro­si­dade che­gava a pa­ta­ma­res ina­cre­di­tá­veis. Era di­fí­cil con­se­guir ra­char a conta no fim da noite nos ba­res da vida. Ele era rá­pido ao sa­car o di­nheiro e pas­sar a ré­gua an­tes que nós pu­dés­se­mos convencê-lo do con­trá­rio. Não gos­tava de che­ques ou car­tões. An­dava com di­nheiro vivo na car­teira. Certa vez, ele me cha­mou num canto e disse: “ABC (ele nunca me cha­mava de Márcio), pa­ra­béns, você vai ser pa­dri­nho de um ca­sa­mento”. Em se­guida, explicou-me que ha­via uma ga­rota po­bre que ele co­nhe­cia e que iria se ca­sar. “Es­tou cha­mando você por­que jun­tos po­de­mos com­prar uma ge­la­deira ou ou­tro ele­tro­do­més­tico útil para ela”. 

Eu e ou­tros ami­gos tí­nha­mos em torno dos vinte anos. Ele já con­tava pouco mais de qua­renta. Nós, os jo­vens, gos­tá­va­mos de sua com­pa­nhia. Al­guns, claro, por­que sa­biam que po­de­riam be­ber e co­mer de graça às cus­tas dele. Ou­tros por­que se sen­tiam bem. Ele con­ser­tava ca­sos amo­ro­sos des­pe­da­ça­dos, apa­zi­guava bri­gas en­tre ami­gos, apro­xi­mava ra­pa­zes e mo­ças que se gos­ta­vam mas não ti­nham co­ra­gem de se de­cla­rar um para o ou­tro. Fa­zia co­men­tá­rios bon­do­sos para mo­ças de be­leza du­vi­dosa ape­nas para deixá-las com aquele sor­riso de sa­tis­fa­ção co­lado ao rosto pelo resto da noite. Exa­ge­rava nos mé­ri­tos das pes­soas que ele gos­tava. Des­con­si­de­rava os de­fei­tos.

Nós nos vía­mos quase di­a­ri­a­mente. Às ve­zes, du­rante o dia, quando na pe­quena re­da­ção do “Jor­nal de Ca­fe­lân­dia” ele des­ti­lava seu ve­neno con­tra os po­lí­ti­cos ini­mi­gos, e tam­bém à noite, quando sen­tá­va­mos nas me­sas dos ba­res para fa­lar­mos de po­lí­tica, fi­lo­so­fia, com­por­ta­mento hu­mano e, claro, mu­lhe­res. O Deco sem­pre es­tava na­mo­rando (era di­vor­ci­ado), mas na maior parte do tempo se en­con­trava li­vre para nos­sas noi­ta­das fes­ti­vas. Lembro-me que às ve­zes vol­tá­va­mos já com o sol alto, de­pois de uma noite in­teira de muito papo re­gado a ál­cool e (da parte dele) ci­gar­ros, mas mesmo as­sim, quando eu o dei­xava na porta da casa dele, ele me pe­dia para des­li­gar o carro para “fi­lo­so­far­mos mais um pouco”.

Uma das con­ver­sas pre­fe­ri­das nes­ses mo­men­tos de fim de noi­ta­das, quando em al­gu­mas oca­siões vol­tá­va­mos so­zi­nhos, era uma pai­xão platô­nica que ele vi­veu (ainda vi­via nessa época) du­rante mui­tos anos. Quem via aquele su­jeito quase sem­pre car­ran­cudo, an­dando em­pi­nado sem olhar para os la­dos, di­fi­cil­mente pen­sa­ria em algo as­sim: uma pai­xão platô­nica (não me lem­bro se, além de mim, al­guém mais sa­bia). Gos­tava de nar­rar por­me­no­ri­za­da­mente os úl­ti­mos acon­te­ci­men­tos que ha­viam en­vol­vido a am­bos.

“On­tem, ela pas­sou em frente ao jor­nal e fez que não me viu”, “Hoje eu fiz o mesmo para ela ver que eu não sou trouxa”, “Pa­rou para fa­lar co­migo”, “Olha só quem está na­quela mesa, ABC!”. Ainda posso ouvi-lo me di­zendo es­sas fra­ses, fa­zendo de tudo para bai­xar o tom de voz. Quando eu co­men­tava com ela (que tam­bém era mi­nha amiga) so­bre o as­sunto, ela ria e me man­dava pa­rar com aquilo, mas no fundo eu sen­tia que ha­via certa cum­pli­ci­dade no ar. Acho que eu mesmo não me sen­tia muito à von­tade ao agir desse modo por­que tam­bém era amigo da na­mo­rada do Deco. En­fim, a vida de ho­mens e mu­lhe­res é as­sim em al­guns mo­men­tos.

Não sei a quem po­dem in­te­res­sar es­tas pa­la­vras. Acho que es­tou es­cre­vendo para mim mesmo. Di­zem que quando es­ta­mos muito tris­tes de­ve­mos nos ocu­par de algo. Em meio aos te­le­fo­ne­mas para Ca­fe­lân­dia, em busca de in­for­ma­ções e ho­rá­rio do en­terro, sen­tei ao com­pu­ta­dor para es­cre­ver es­tas li­nhas ao acaso, sem estruturá-las, sem me pre­o­cu­par com o que está saindo. Quero ape­nas es­cre­ver para me ocu­par, para ame­ni­zar este sen­ti­mento de perda, este sen­ti­mento que sem­pre nos ator­doa de modo ine­xo­rá­vel.

Al­guns ami­gos em co­mum me in­for­mam por te­le­fone que ele mor­reu no meio da rua, en­quanto ca­mi­nhava de um lu­gar qual­quer para ou­tro lu­gar qual­quer. Fa­lei há pouco com uma de suas ex-mulheres e, tal­vez para que nos sirva de con­solo, ela me disse que “ao me­nos, ele mor­reu do jeito que que­ria”. O De­qui­nho mor­ria de medo de aca­bar seus dias numa cama.

Meu ir­mão mais ve­lho cos­tuma con­tar, en­tre gar­ga­lha­das, que ele e al­guns ami­gos gos­ta­vam de, nas ma­dru­ga­das de sá­bado para do­mingo, dar uma es­pi­ada no que es­tava acon­te­cendo na sala do jor­nal, onde o Deco cos­tu­mava na­mo­rar a por­tas fe­cha­das. E numa des­sas ve­zes, eles ou­vi­ram a na­mo­rada, en­tre ge­mi­dos de pra­zer, jo­gar ao ar es­tas pa­la­vras: “Es­tou indo para o céu”. Não sei se existe um céu. Mas se exis­tir, e o Deco ja­mais iria para ou­tro lu­gar, vão pre­ci­sar ar­ras­tar os mó­veis por lá para que a fes­tança co­mece. Se as­sim for, deve ter muita gente aguar­dando sua che­gada. Se o céu não exis­tir, se o céu for ape­nas frag­men­tos de fe­li­ci­dade que vi­ve­mos por aqui, tudo bem. O Deco foi da­que­les que apro­vei­tou a vida o su­fi­ci­ente para não pre­ci­sar de ou­tro mundo para fazê-lo. 

Hoje à noite, so­zi­nho, vou abrir um vi­nho em ho­me­na­gem ao meu ve­lho amigo. Ver­go­nho­sa­mente, eu não o via há anos. Mas isso tam­bém é uma prova de nossa ami­zade e res­peito. Uma ami­zade ver­da­deira não re­quer ma­nu­ten­ção re­gu­lar. Ela está lá, ele­vada numa de­ter­mi­nada faixa de es­paço e de tempo, sem que nada possa feri-la ou alterá-la. Quando eu sen­tir o pri­meiro gole do vi­nho, lem­bra­rei da ve­lha frase que ou­vía­mos em mui­tas de suas fes­tas: “Para os ami­gos, um bom vi­nho”.

Ama­nhã, acor­da­rei bem cedo e fa­rei a barba. De­pois, se hou­ver tempo, pas­sa­rei to­mar um ca­fe­zi­nho em al­gum lu­gar do ca­mi­nho. O Deco não vi­via sem seus ca­fe­zi­nhos. Na es­trada, en­quanto vi­ajo os oi­tenta quilô­me­tros até Ca­fe­lân­dia, mui­tos pen­sa­men­tos vi­rão. As noi­ta­das, as dis­cus­sões fi­lo­só­fi­cas, os em­ba­tes po­lí­ti­cos, os mo­men­tos di­ver­ti­dos. Lem­bra­rei no­va­mente, por exem­plo, que certa vez in­ven­ta­mos de fa­zer o ca­sa­mento do Deco. 

Alu­ga­mos uma chá­cara e che­ga­mos a pro­vi­den­ciar con­vi­tes para o pes­soal de nos­sos cír­cu­los de ami­zade. O Bento se ves­tiu de pa­dre. O Deco e a Eli (en­tão sua na­mo­rada) en­tra­ram como se es­ti­ves­sem des­fi­lando en­tre con­vi­da­dos na igreja. E foi uma das fes­tas mais di­ver­ti­das que pu­de­mos fa­zer. Um de­ta­lhe cu­ri­oso foi que uma pro­fes­sora que con­vi­da­mos para ser uma das ma­dri­nhas (sim, ha­via pa­dri­nhos!) re­al­mente acre­di­tou que fosse um ca­sa­mento de ver­dade. E fi­cou de certo modo de­cep­ci­o­nada quando des­co­briu a farsa. Ela tam­bém já mor­reu.

Muita gente que ro­man­tiza a morte diz que as pes­soas não mor­rem en­quanto não as es­que­ce­mos. Di­zem que en­quanto con­ti­nu­a­mos a fa­lar de­las, a lem­brar de suas vi­das, elas con­ti­nu­a­rão vi­vas. De certo modo, é uma ver­dade. Tal­vez seja por isso que eu não es­tou con­se­guindo pa­rar de es­cre­ver es­tas li­nhas. Tal­vez eu es­teja com certa di­fi­cul­dade para acei­tar que meu amigo Deco mor­reu e queira, desde já, evi­tar que sua morte seja o fim. Mas tam­bém pode ser que eu es­teja es­cre­vendo exa­ta­mente por sa­ber que re­al­mente esse fim che­gou.

De todo modo, as­sim como nossa ve­lha ami­zade está ins­ta­lada para sem­pre nessa in­tri­gante li­nha ima­gi­ná­ria que cha­ma­mos de tempo, é pos­sí­vel que o Deco e to­dos que mor­rem tam­bém se­jam man­ti­dos as­sim, sus­pen­sos num tempo que sem­pre passa den­tro do uni­verso que co­nhe­ce­mos e me­di­mos, sus­pen­sos num tempo para o qual sem­pre ha­verá vida. Vida tão am­pla e mis­te­ri­osa ca­paz de nos jun­tar em qual­quer tempo. 

Ama­nhã, à beira do cai­xão, à beira do tú­mulo, à beira das lá­gri­mas, ve­rei meu amigo Deco pela úl­tima vez neste tempo que cha­ma­mos de pre­sente.

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