Crônicas

A caminhada e o garoto de bicicleta

quinta-feira, 18 de agosto de 2011 Texto de

Re­tomo aos pou­cos mi­nhas ati­vi­da­des fí­si­cas, que con­si­dero fun­da­men­tais para mi­nha so­bre­vi­vên­cia. As­sim como ex­pe­ri­mento o es­tí­mulo im­pres­si­o­nante da ca­feína após meus (no má­ximo) dois ca­fe­zi­nhos diá­rios, tam­bém sinto a en­dor­fina pro­du­zir seus efei­tos como se um sol par­ti­cu­lar nas­cesse di­ante de mim. Fi­quei pa­rado du­rante al­gu­mas se­ma­nas, nem sei ex­pli­car o porquê. Mas o fato é que desde já la­mento o que perdi nesse pe­ríodo. Por­que ca­mi­nhar é tam­bém vi­ven­ciar uma crô­nica da vida.

Ve­jam o que me ocor­reu agora há pouco, por volta das sete e meia da noite.

Pa­rei num de­ter­mi­nado ponto da ca­mi­nhada e, apoiando-me ao poste de uma placa, co­me­cei a fa­zer meus alon­ga­men­tos. E lá veio, en­quanto isso, um ga­roto, 7 ou 8 anos, de bi­ci­cleta e boné. Coin­ci­den­te­mente, se­ria ali tam­bém o ponto que ele con­tor­na­ria para re­tor­nar à com­pa­nhia dos pais, a coisa de trinta me­tros de onde es­tá­va­mos. Tudo se­ria nor­mal se ele não me olhasse com sim­pa­tia e sol­tasse aquela frase. Uma frase que me co­mo­veu: “Oi, bom dia… quer di­zer, boa noite, né?”. 

Le­vei al­guns se­gun­dos para res­pon­der. Fi­quei sur­preso. Co­mo­vido de ver­dade. Não é fá­cil nos dias de hoje um ga­roto de 7 ou 8 anos cum­pri­men­tar um adulto desse modo. Eu es­tava já no fim dos meus alon­ga­men­tos e ao terminá-los, num im­pulso, dei três ou qua­tro pas­sos na di­re­ção de onde es­ta­vam os pais e a pró­pria cri­ança. Num lapso, pen­sei em di­zer, aos pais, pa­ra­béns pelo me­nino que vo­cês es­tão edu­cando.

Mas an­tes que eu com­ple­tasse meu tra­jeto, algo me tra­vou. Não houve en­dor­fina que me ani­masse a ir adi­ante. Não sei. Fi­quei pen­sando no que os pais po­de­riam achar de um su­jeito que fica con­ver­sando com o fi­lho de 7 ou 8 anos. Pen­sei se iriam me in­ter­pre­tar de modo po­si­tivo. Pen­sei coi­sas as­sim. E pas­sei reto, car­re­gando um peso a mais que o sim­ples can­saço.

Hoje, por mais que o mundo nos abra to­das as por­tas para as mais di­ver­sas pos­si­bi­li­da­des de in­te­gra­ção hu­mana, a ver­dade é que às ve­zes ainda lu­ta­mos con­tra bar­rei­ras cri­a­das por nos­sas pró­prias li­mi­ta­ções, por nos­sos me­dos, por nos­sas in­cer­te­zas, por nossa in­se­gu­rança di­ante de ta­ma­nha abran­gên­cia.

Cem me­tros abaixo, na sequên­cia da ca­mi­nhada, ob­ser­vei um ado­les­cente jo­gar, de den­tro do carro, uma gar­rafa de cer­veja va­zia que se es­pa­ti­fou na sar­jeta. Es­pero que aquela cri­ança não se torne este ado­les­cente. Es­pero que aquela cri­ança não seja in­fec­tada por nos­sas li­mi­ta­ções. Que ela não te­nha medo de con­ti­nuar di­zendo boa noite e an­dando de bi­ci­cleta em meio a to­dos nós. 

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