Crônicas, Impressões

Memoráveis

segunda-feira, 28 de junho de 2010 Texto de

Aí está a graça da Copa. Tem gente que fica tor­cendo para que os gran­dões se­jam eli­mi­na­dos. Pra quê? O que pode ser mais emo­ci­o­nante do que es­tes dois jo­gos de quartas-de-final?: Bra­sil x Ho­landa e Ar­gen­tina x Ale­ma­nha.

Pena que a Itá­lia saiu. Pena que Es­pa­nha ou Por­tu­gal vai sair. Os gran­des con­fron­tos é que fa­zem da Copa uma ver­da­deira Copa. São des­ses jo­gos que não nos es­que­ce­mos ja­mais.

O úl­timo con­fronto en­tre Bra­sil e Ho­landa, em 1998, é um dos meus jo­gos ines­que­cí­veis. As­sisti à par­tida na mi­nha pe­quena Ca­fe­lân­dia. E me lem­bro exa­ta­mente da hora em que o Taf­fa­rel pe­gou o pê­nalti de­ci­sivo.

Es­tá­va­mos em vá­rios ami­gos e fa­mi­li­a­res. Eu não olhei a co­brança. Fi­quei de­tido num ponto qual­quer da rua (es­tá­va­mos na va­randa, onde co­lo­ca­mos a TV), era uma boca-da-noite agra­dá­vel, quase um ca­lor, mas ainda as­sim uma noite in­de­cisa, uma noite que ainda não se mos­trava por com­pleto, se se fe­cha­ria em tre­vas ou se se ilu­mi­na­ria de­baixo de lua e es­tre­las.

A casa de mi­nha mãe é numa es­quina e tudo es­tava si­len­ci­oso no en­torno na­que­les mo­men­tos de ten­são que an­te­ce­dem uma co­brança de­ci­siva de pê­nalti. En­tão, se­gu­rando a mão de mi­nha fi­lha de cinco anos, fi­xei o olhar num ca­chorro dei­tado em frente de uma das ca­sas vi­zi­nhas. Ele dor­mia como se nada de im­por­tante es­ti­vesse acon­te­cendo, como se dali a pouco não ha­ve­ria uma ex­plo­são de fe­li­ci­dade ou uma ter­rí­vel frus­tra­ção.

Se­gun­dos de­pois, o vira-lata sal­tou as­sus­tado com os fo­gos e gri­tos que já res­so­a­vam e fa­ziam a noi­ti­nha, en­fim, sor­rir de ale­gria. As pes­soas pu­la­vam ao meu lado e eu ainda le­vei al­guns se­gun­dos para me li­ber­tar de uma breve pa­ra­li­sia, para dei­xar de olhar o ca­chorro a essa al­tura já de­vi­da­mente em pé, para ver a rua ra­pi­da­mente forrar-se de ban­dei­ras e de gente co­me­mo­rando, para ver a lua dis­tante que co­me­çava a se er­guer.

O fu­te­bol é as­sim. Cu­ri­oso, inex­pli­cá­vel. Fan­ta­si­oso, fundo. 

Mas e se fosse Bra­sil x Es­lo­vá­quia? Ah, não. Aí, nem o ca­chorro do vi­zi­nho te­ria se le­van­tado. E nem ha­ve­ria lua.

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