Impressões

Emoção não se planeja

domingo, 4 de julho de 2010 Texto de

Mui­tas ve­zes as coi­sas mais emo­ci­o­nan­tes de nos­sas vi­das não es­tão li­ga­das aos prin­ci­pais fa­tos de nos­sas vi­das. Na Copa do Mundo tam­bém é as­sim. Nem sem­pre as gran­des emo­ções são re­ser­va­das para os prin­ci­pais du­e­los.

Quem po­de­ria ima­gi­nar que Uru­guai x Gana e Es­pa­nha x Pa­ra­guai pu­des­sem ser os dois jo­gos mais dra­má­ti­cos da Copa?

Quem po­de­ria ima­gi­nar que não foi na hora da sua maior con­quista, mas quando você viu uma me­ni­ni­nha suja e seu olhar de fome do ou­tro lado da rua? Que foi aí que você per­deu o jogo con­tra uma lá­grima?

Dun­guismo

Com o Bra­sil eli­mi­nado, aflo­ram to­dos os er­ros, to­das as bes­tei­ras le­va­das a cabo pelo trei­na­dor da se­le­ção. Desde a con­vo­ca­ção mal feita que exa­ge­rou na pre­ser­va­ção a qual­quer custo do grupo ali­ado até a pos­tura pre­po­tente no trato com a im­prensa, tor­ce­do­res e com quem se me­tesse em seu ca­mi­nho, Dunga es­cre­veu uma ex­ce­lente re­ceita para nunca mais ser usada.

É pre­ciso, con­tudo, ser ho­nesto. Sem­pre. Não foi essa re­ceita o prin­ci­pal mo­tivo da eli­mi­na­ção bra­si­leira. O Bra­sil caiu fora por­que os ca­ras que jo­ga­ram fo­ram in­com­pe­ten­tes para ma­tar o jogo no pri­meiro tempo. Po­de­ría­mos ter feito, sem qual­quer exa­gero, 3 a 0, o que fa­ria a Ho­landa en­fiar a vi­ola no saco já no in­ter­valo.

Claro que é di­fí­cil pin­çar o jogo con­tra a Ho­landa do con­texto. A par­tida fez parte do es­tado de coi­sas cri­ado a par­tir do cha­mado “dun­guismo”. Mas se pin­çar­mos so­mente o jogo, fica essa sen­sa­ção: a sen­sa­ção de que, com dun­guismo ou sem dun­guismo, o Bra­sil po­de­ria ter ven­cido o jogo.

Algo pa­re­cido ocor­reu em ou­tras co­pas. Em 1990, para ci­tar ape­nas um caso pa­re­cido, a se­le­ção hor­ro­rosa mon­tada pelo La­za­roni caiu nas oitavas-de-final con­tra a Ar­gen­tina. Aliás, con­tra uma Ar­gen­tina po­dre. O time es­tava em pan­da­re­cos, des­fal­cada e con­tun­dida.

A exem­plo do que ocor­reu na era Dunga, quando as prin­ci­pais ca­rac­te­rís­ti­cas do fu­te­bol bra­si­leiro fo­ram ex­tir­pa­das para dar lu­gar às igre­ji­nhas, à falta de cri­a­ti­vi­dade e ao exor­cismo de nossa arte de jo­gar bola, tam­bém na­quela Copa o Bra­sil foi po­dado, foi de­ce­pado no que me­lhor sabe fa­zer.

Só que no dia da eli­mi­na­ção em 1990, a culpa não foi do La­za­roni ou de to­dos es­ses pro­ble­mas. A culpa foi dos ata­can­tes bra­si­lei­ros. Com vinte mi­nu­tos de jogo, o pla­car já po­de­ria mos­trar 4 a 0 con­tra aquela Ar­gen­tina.

Tal­vez, hoje e on­tem, o cas­tigo te­nha al­gum pro­veito.

Compartilhe