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Em apuros, chame o destino

segunda-feira, 15 de março de 2010 Texto de

A fór­mula é in­fa­lí­vel, meu jo­vem: pla­neje uma obra ou um evento que possa lhe ren­der muito di­nheiro e pres­tí­gio; con­trate uma firma inidô­nea (será fá­cil en­con­trar vá­rias) para re­a­li­zar seu pro­jeto; peça sub­sí­dios ao go­verno, não se es­que­cendo dos fa­vo­res em troca dos em­prés­ti­mos; mo­lhe a mão dos fun­ci­o­ná­rios cer­tos nas re­par­ti­ções cer­tas para que seu pro­jeto seja li­be­rado, ape­sar de al­gu­mas ir­re­gu­la­ri­da­de­zi­nhas. E está feito. Lance-o e es­pere cho­ver na sua horta.

In­fe­liz­mente, nem tudo são sem­pre flo­res. Às ve­zes o Des­tino faz das suas e o vi­a­duto cons­truído com me­nos con­creto do que de­via de­saba e mata de­ze­nas de pes­soas (parte da verba foi para sua pis­cina, lem­bra?); ou a ar­qui­ban­cada mon­tada para o show de rock por mãos ama­do­ras des­penca, mata al­guns e mu­tila ou­tros (se fosse uma firma es­pe­ci­a­li­zada, seus fi­lhos não po­de­riam ter ido à Dis­ney, lem­bra?); ou ainda a fa­bri­ca­zi­nha de fo­gos de ar­ti­fí­cios sem al­vará ex­plode e ar­rasa um quar­tei­rão in­teiro, re­sul­tando em mor­tos e fe­ri­dos, além dos pre­juí­zos ma­te­ri­ais para ou­tros tan­tos (foi pre­ciso pas­sar grana pro chato da­quele pre­feito, lem­bra?). E aí? Como fi­cam seu nome, seu pres­tí­gio e seu rico pé-de-meia? Os cha­tos dos re­pór­te­res es­tão ba­tendo à sua porta, as de­nún­cias de cor­rup­ção in­va­dem seu sa­cros­santo lar e a po­lí­cia está em seu ras­tro. É o fim!

Fim? Nada disso. Você está na Terra Pro­me­tida. Ou­tros, an­tes de você, já pas­sa­ram pelo mesmo su­foco e nada lhes acon­te­ceu. Pelo con­trá­rio, vi­vem bem, na ter­ri­nha ou no ex­te­rior, al­guns ocu­pam car­gos de con­fi­ança, ou­tros en­ve­re­da­ram pela po­lí­tica, con­ta­ram com a me­mó­ria curta da massa e fo­ram elei­tos com pol­pu­dos sa­lá­rios e di­reito de apo­sen­ta­do­ria co­ro­ando su­a­dos oito anos de man­dato. Por que se­ria di­fe­rente com você? 

An­tes de mais nada, mostre-se sur­preso com o trá­gico des­fe­cho de seu pro­jeto e não se es­queça do ar sé­rio e com­pun­gido ao de­cla­rar para a mí­dia (essa fu­tri­queira!) que você faz ques­tão de acom­pa­nhar de perto as in­ves­ti­ga­ções po­li­ci­ais, e que se em­pe­nhará pes­so­al­mente para que toda a ver­dade ve­nha à tona, doa a quem doer.

Se a coisa, mesmo as­sim, co­me­çar a fi­car ruça pro seu lado, con­trate ime­di­a­ta­mente para defendê-lo das ca­lú­nias um da­que­les rá­bu­las com vá­rias vi­tó­rias em cau­sas se­me­lhan­tes no cur­rí­culo. Adie a com­pra da­quele anel de bri­lhante para sua se­cre­tá­ria e in­vista no seu de­fen­sor, por­que lim­par o nome na praça tem seu preço. Em pú­blico, ale­gue sem­pre ino­cên­cia e deixe o resto por conta dele, que fará pro­vas com­pro­me­te­do­ras de­sa­pa­re­ce­rem e tes­te­mu­nhas fal­sas sur­gi­rem do nada. “Por mo­tivo de saúde”, você fal­tará a al­gu­mas au­di­ên­cias im­por­tan­tes e adi­ará o mais pos­sí­vel o jul­ga­mento.

Quando seu de­lito (que pa­la­vra forte para um ci­da­dão hon­rado como você!) ti­ver caído no es­que­ci­mento ge­ral – ex­ceto para as fa­mí­lias das ví­ti­mas, mas es­sas cha­tas você tira de le­tra – uma no­ti­ci­a­zi­nha lá no meio de uns pou­cos jor­nais dirá que você foi ab­sol­vido por falta de pro­vas e que tudo não pas­sou de uma fa­ta­li­dade. Seu nome es­tará limpo para co­me­çar ou­tros pro­je­tos. No Pa­raíso Tro­pi­cal, meu jo­vem, o Des­tino sem­pre paga pe­los da­nos. Afi­nal, es­tava es­crito no ho­rós­copo das ví­ti­mas que na­quele dia fa­tí­dico elas não de­ve­riam ter saído de casa. Quem man­dou não acre­di­ta­rem?

E-mail: anaflores.rj@terra.com.br

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