Impressões

Vozeirão

quinta-feira, 11 de março de 2010 Texto de

Mor­reu Mo­acyr Ama­ral! Ab­sur­da­mente, eu não soube. Foi em agosto do ano pas­sado. Sete me­ses atrás! É quase ina­cre­di­tá­vel que pes­soas com as quais você tra­ba­lhou e con­vi­veu du­rante certo pe­ríodo mor­ram e você não tome co­nhe­ci­mento.

Na Lins Rá­dio Clube, co­meço dos anos de 1990, Mo­acyr era o di­re­tor da emis­sora. Eu che­fi­ava o jor­na­lismo. O vo­zei­rão do Mo­acyr era uma de suas mar­cas re­gis­tra­das. Ao abir o jor­nal às 12 ho­ras, ele cra­vava “Me­e­e­e­e­ei­i­i­i­i­i­o­o­o­o­o­o­o­o­o­o­di­i­i­a­a­a­a­a­a­a­aaá”. Era sen­sa­ci­o­nal. Ti­nha gente que nem se in­te­res­sava pe­las no­tí­cias, mas ou­via pelo me­nos a aber­tura do no­ti­ci­oso só para cur­tir as in­ven­ções do Mo­acyr.

Mas ele não era ape­nas voz. Tam­bém era co­ra­ção. Tra­ba­lhava pra va­ler. Acre­di­tava no que fa­zia. Não ti­nha medo de cara feia. Fa­zia suas crí­ti­cas, mas es­tava sem­pre aberto ao diá­logo. Pa­re­cia ser, mas não era o dono da ver­dade. Era ape­nas um ga­rim­pa­dor da ver­dade.

Nos úl­ti­mos anos, ele man­ti­nha, com o ra­di­a­lista Ed­son Car­los Secco, o jor­nal “De­bate”, na mesma Lins onde ele mar­cou época. Uma época ro­mân­tica que já vai se es­go­tando com o fim da­que­les que sou­be­ram mantê-la gra­ci­osa e atra­ente.

His­tó­ria de rá­dio

Nessa mesma Lins Rá­dio Clube, ha­via um apre­sen­ta­dor de pro­grama ser­ta­nejo cha­mado Jota Mar­ques. Era um su­jeito bai­xi­nho, bi­go­dudo, de ca­be­los pre­tos li­sos que ele man­ti­nha ra­zo­a­vel­mente com­pri­dos e pen­te­a­dos como um ator de no­vela me­xi­cana. Sim­pá­tico e boa praça.
Todo fim de tarde ele ia ao ar para aten­der aos pe­di­dos de ou­vin­tes.

Num certo pe­ríodo, criei um ou­vinte fic­tí­cio. Chamava-se Ele­nildo Ma­deira e todo santo dia li­gava (da pró­pria re­da­ção da rá­dio) para o Jota com his­tó­rias ma­lu­cas que acon­te­ciam com ele. Uma pes­ca­ria onde um ja­caré mordera-lhe a bunda e coi­sas do tipo. Tam­bém cos­tu­mava fa­lar de re­cei­tas mi­ra­bo­lan­tes que ele in­ven­tava, tipo uma fri­tada de ovos que le­vava ca­chaça.

O cu­ri­oso é que o apre­sen­ta­dor foi se afei­ço­ando ao Ele­nildo Ma­deira, ou­vinte que ele jul­gava re­al­mente exis­tir. Ha­via dias em que, de pro­pó­sito, eu não fa­zia a li­ga­ção só para ver a re­a­ção do Jota. E nes­sas oca­siões, ele sem­pre co­men­tava em tom de la­mento a au­sên­cia do amigo Ele­nildo. O papo en­tre os dois pas­sou a fa­zer parte do pro­grama. A fic­ção foi se es­pa­lhando en­tre o pes­soal da rá­dio. Vi­rou atra­ção. Todo mundo pa­rava para ou­vir a con­versa que ia ao ar. Só o Jota não sa­bia. E nunca soube. O Jota já mor­reu. O Ele­nildo Ma­deira tam­bém.

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