Impressões

Duelo

sexta-feira, 5 de março de 2010 Texto de

Jo­seph Con­rad (1857-1924), um dos meus es­cri­to­res pre­di­le­tos, é o au­tor de “Os du­e­lis­tas”, li­vro pu­bli­cado em 1908 e que em 1977 foi adap­tado para a te­lona por Ri­dley Scott. O caso é apa­ren­te­mente sim­ples: dois ofi­ci­ais fran­ce­ses dis­pu­tam uma sé­rie de du­e­los. Mas não é tão sim­ples as­sim. Nas tin­tas de Con­rad, o li­vro transforma-se numa his­tó­ria per­tur­ba­dora en­tre dois ho­mens cuja ani­mo­si­dade, de ori­gem ba­nal, mu­dará o rumo de suas vi­das.

Con­rad é au­tor de gran­des tí­tu­los, como “O co­ra­ção das tre­vas” (que no ci­nema vi­rou “Apo­calypse now”) e “Lorde Jim”. Aliás, lanço aqui uma pi­tada de po­lê­mica: vejo a grande mai­o­ria dos lei­to­res desse bri­lhante es­cri­tor pre­fe­rir “O co­ra­ção das tre­vas”. Mas eu sou mais “Lorde Jim”. Pode ser algo muito sub­je­tivo de mi­nha parte, tal­vez. Mas acho o con­flito hu­mano des­crito em “Lorde Jim” ar­re­ba­ta­dor.

Para quem não sabe, Jo­seph Con­rad nas­ceu na Ucrâ­nia, mas tem sua obra es­crita em lín­gua in­glesa. Ele pas­sou grande parte da vida tra­ba­lhando e vi­vendo no mar. Foi daí que ti­rou a es­sên­cia de sua ma­ra­vi­lhosa nar­ra­tiva.

Mas mi­nha dica de hoje é mesmo “Os du­e­lis­tas”. Como se cos­tuma di­zer, é li­vro que você lê numa sen­tada.

Leia um pe­queno tre­cho:

“Em­bora fre­quen­te­mente mar­chas­sem nas mes­mas fi­lei­ras ou es­ca­ra­mu­ças­sem lado a lado nas flo­res­tas, os dois ofi­ci­ais ig­no­ra­vam um ao ou­tro – nem tanto por ani­mo­si­dade quanto por uma real e au­tên­tica in­di­fe­rença. To­das as suas re­ser­vas de ener­gia mo­ral eram des­pen­di­das no re­sis­tir à ter­rí­vel hos­ti­li­dade da na­tu­reza e à sen­sa­ção es­ma­ga­dora do de­sas­tre ir­re­me­diá­vel. Ao fim e ao cabo, con­ta­vam en­tre os mais ati­vos, os me­nos des­mo­ra­li­za­dos do ba­ta­lhão; sua vi­go­rosa vi­ta­li­dade conferia-lhes, aos olhos de seus ca­ma­ra­das, os as­pecto de um para he­roico. E am­bos ja­mais tro­ca­vam mais que uma ou duas pa­la­vras for­tui­tas…”

Mi­nha co­ta­ção: muito bom

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