Colaboradores

Desse jeito é complicado

segunda-feira, 1 de março de 2010 Texto de

Não sei por quê, mas a pa­la­vra que mais te­nho ou­vido no no­ti­ciá­rio diá­rio do rá­dio – sou ou­vinte as­sí­dua desse meio de co­mu­ni­ca­ção – é o ad­je­tivo “com­pli­cado”. Seja por po­breza de vo­ca­bu­lá­rio dos re­pór­te­res, seja por sua com­pre­en­sí­vel ten­são di­ante de uma si­tu­a­ção trá­gica por cuja co­ber­tura são res­pon­sá­veis, ou sim­ples­mente pela co­mo­di­dade de lan­ça­rem mão de cer­tos co­rin­gas da Lín­gua, como, aliás, tam­bém vem acon­te­cendo com o verbo “co­lo­car”. Mas dele tra­ta­mos adi­ante.

Vol­te­mos ao “com­pli­cado”. Será que uma obra ina­ca­bada na Rua Tal, atra­pa­lhando o fluxo de veí­cu­los às 11h da ma­nhã de um dia de se­mana pode ser qua­li­fi­cada da mesma ma­neira que a ex­plo­são de uma fá­brica clan­des­tina de fo­gos de ar­ti­fí­cio que pro­vo­cou de­ze­nas de mor­tes e mui­tos fe­ri­dos? A fila nos pos­tos de saúde ou o en­gar­ra­fa­mento de 6 km na Ponte Rio-Niterói são tão “com­pli­ca­dos” quanto a si­tu­a­ção das pes­soas que per­de­ram tudo du­rante um tem­po­ral? O alto ín­dice de aci­den­tes e mor­tes cau­sa­dos por mo­to­ris­tas al­co­o­li­za­dos pode ser des­crito com o mesmo ad­je­tivo de uma greve, por mais justa que esta seja? Pois no no­ti­ciá­rio de rá­dio pa­rece que tudo se ni­ve­lou se­man­ti­ca­mente.

Não é uma ques­tão de pre­ci­o­sismo. A Lín­gua Por­tu­guesa é riquís­sima e vem sendo em­po­bre­cida pela pre­guiça dos usuá­rios de es­co­lhe­rem a pa­la­vra ade­quada a cada si­tu­a­ção, ta­refa fun­da­men­tal do pro­fis­si­o­nal que lida com tex­tos. Sim­ples­mente ele­gem uma e a usam pro que der e vier, e a moda vai se es­pa­lhando. Não se ouve mais a in­for­ma­ção de que o trá­fego está in­tenso na Rua Tal, ou que es­ta­mos acom­pa­nhando a si­tu­a­ção dra­má­tica dos mo­ra­do­res do Morro X ou que se re­pe­tem to­dos os anos as trá­gi­cas con­sequên­cias do so­ter­ra­mento de pes­soas e ca­sas du­rante um tem­po­ral. Tudo pas­sou a ser com­pli­cado…

Que tal, en­tão, re­la­tar so­bre a pers­pec­tiva ater­ro­ri­zante, a so­li­ci­ta­ção dra­má­tica, o trá­fego con­fuso, a si­tu­a­ção de­li­cada, a de­ci­são po­lê­mica, a res­posta ina­de­quada etc? E por que não, tam­bém, des­cre­ver a si­tu­a­ção com­pli­cada? Afi­nal, essa pa­la­vra tem e sem­pre terá seu lu­gar na nossa Lín­gua, só não pre­ci­sava era tra­ba­lhar hora ex­tra, como anda fa­zendo ul­ti­ma­mente.

Exa­ta­mente como o que vem acon­te­cendo com seu com­pa­nheiro de Lín­gua, o verbo “co­lo­car”. Nin­guém mais veste a ca­misa ou calça o sa­pato; ra­ra­mente se tampa a pa­nela ou se põem os pin­gos nos iis e a mão na massa, e nunca mais se adi­ci­o­nou o azeite na re­ceita ou se guar­dou o li­vro na es­tante. Agora, tudo se co­loca. Até a opi­nião do co­lega é “co­lo­cada” na as­sem­bleia.

Tudo in­dica que o vo­ca­bu­lá­rio dos bra­si­lei­ros anda bas­tante com­pli­cado… oops, anda bas­tante es­casso. Uma pena!

E-mail: anaflores.rj@terra.com.br

Compartilhe