Impressões

Velhice

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010 Texto de

Nin­guém so­nha com ela. Nin­guém a de­se­ja di­re­ta­men­te. Mas, por bem ou por mal, to­dos de al­gum mo­do a que­rem. É sim­ples: nin­guém – ou qua­se nin­guém – quer mor­rer. Vi ou­tra vez o fil­me “Pel­le, o con­quis­ta­dor” (Di­re­ção de Bil­le Au­gust, 1988, Os­car de me­lhor fil­me es­tran­gei­ro e Pal­ma de Ou­ro no Fes­ti­val de Can­nes), com uma atu­a­ção ex­cep­ci­o­nal de Max Von Sy­dow. Em­bo­ra o tí­tu­lo do fil­me re­me­ta à his­tó­ria do me­ni­no (Pel­le), o en­re­do é mui­to mais – aliás, qua­se to­do – so­bre o dra­ma da ve­lhi­ce (no ca­so, do pai do ga­ro­to – Max Von Say­dow). O dra­ma da ve­lhi­ce à bei­ra do des­car­te. Sua vul­ne­ra­bi­li­da­de e fal­ta de pers­pec­ti­va.

Fi­co pen­san­do se na ho­ra da ve­lhi­ce, seus pro­ta­go­nis­tas, in­flu­en­ci­a­dos pe­lo te­mor de se­rem des­car­ta­dos, dei­xa­dos de la­do, ti­ra­dos do ca­mi­nho, não bus­cam for­ças ex­tras pa­ra mos­trar que ain­da po­dem ser úteis, que ain­da po­dem con­si­go mes­mos, e até com ou­tros.

Mi­nha mãe, à bei­ra dos 80, sem­pre foi do­na-de-ca­sa. Ela não quer nem dis­cu­tir a pos­si­bi­li­da­de de ter uma pes­soa pa­ra aju­dá-la em seu co­ti­di­a­no, uma em­pre­ga­da, uma se­cre­tá­ria ou al­guém pa­ra uma fun­ção se­me­lhan­te.

Mi­nha mãe se­gun­da – mi­nha so­gra (sim, de ver­da­de!) – con­tra­ta fa­xi­nei­ra, mas não abre mão de fa­zer tu­do que lhe ga­ran­ta ab­so­lu­ta au­to­no­mia em seu co­ti­di­a­no. Faz tu­do pa­ra ela e tam­bém pa­ra os ou­tros. Es­tá cer­to que é bem mais no­va, mas as­sim mes­mo...

Acho que es­se ti­po de pos­tu­ra, além de car­re­gar a es­sên­cia de uma dig­ni­da­de que não per­mi­te se es­vair, man­tém a es­pe­ran­ça de que a es­cu­ri­dão não se apro­xi­me du­ran­te a vi­da. Es­sa sim nin­guém quer. Mas a ve­lhi­ce, ao me­nos ho­je, acre­di­to ser pos­sí­vel fi­tá-la com olhos cúm­pli­ces.

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