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O cansaço do Rio

domingo, 8 de fevereiro de 2009 Texto de

Para cada pas­seio des­lum­brante pelo bon­di­nho do Pão de Açú­car, uma bala per­dida ao pé do Pão. Para cada vi­sita ao Cristo Re­den­tor com di­reito a uma pa­no­râ­mica do Rio de ti­rar o fô­lego, um as­sas­si­nato bem ali, seja a ví­tima bra­si­leira ou es­tran­geira, não faz a me­nor di­fe­rença para quem aperta o ga­ti­lho. Para cada po­e­sia que a La­goa Ro­drigo de Frei­tas ins­pira com seu es­pe­lho, o cho­que de sa­ber que a tranqüi­li­dade dos pas­san­tes não existe mais, com uma tra­gé­dia à es­preita em cada curva. 

A ale­gria de ver uma par­tida de fu­te­bol no Ma­ra­canã já não é su­fi­ci­ente para es­con­der o medo do tor­ce­dor, que nunca sabe se volta in­teiro do es­tá­dio nem se vale mesmo a pena ver um jogo ao vivo. Por­que nesse pro­grama não existe só o medo de as­salto ou de ser morto: no mesmo pa­cote vem o re­ceio dos tor­ce­do­res que con­fun­dem vi­tó­ria e der­rota com vida ou morte. O time de­les per­deu? Os ou­tros que se cui­dem, por­que aí vêm bala, soco, pro­vo­ca­ções e bri­gas vi­o­len­tas na rua e nas con­du­ções de volta para casa. Azar de quem viu seu time ga­nhar, por­que os ad­ver­sá­rios le­vam essa vi­tó­ria como pro­vo­ca­ção e não como des­fe­cho na­tu­ral de qual­quer es­porte, quando uns ga­nham e ou­tros per­dem. Aqui e em al­guns ou­tros paí­ses igual­mente idi­o­tas e sel­va­gens nesse se­tor, a der­rota de um time é a se­nha para o grito de guerra de seus tor­ce­do­res.

Atra­ves­sar os tú­neis da ci­dade, pas­sear na orla, an­dar pe­las cal­ça­das de qual­quer bairro do Rio, pa­rar no si­nal ver­me­lho, com­prar pi­poca ou ver uma vi­trine dei­xa­ram de ser atos sim­ples do co­ti­di­ano na ci­dade. Não sei so­bre ou­tras ci­da­des no Bra­sil, em­bora o no­ti­ciá­rio ateste que o pe­rigo já che­gou a mui­tas ou­tras, in­clu­sive as me­no­res e não mais tão pa­ca­tas; mas no Rio faz tempo que es­sas sim­ples ce­nas do dia-a-dia se trans­for­ma­ram em opor­tu­ni­da­des para o as­sal­tante ou a qua­dri­lha da vez cis­mar com você, achá-lo com cara de otá­rio ou com pinta de pró­xima ví­tima. Até nas bar­bas de gua­ri­tas de po­li­ci­ais ou em frente a de­le­ga­cias.

Sei que es­tou cho­vendo no mo­lhado, 90% dos ha­bi­tan­tes do Rio já vi­ve­ram ex­pe­ri­ên­cias de vi­o­lên­cia e mui­tos nem ti­ve­ram chance de con­tar o que se pas­sou. Mas quando vai che­gando o fim do ano, pa­rece que nos vi­ci­a­mos em cul­ti­var um resto de es­pe­rança por dias me­lho­res, como se a pas­sa­gem de um ano para ou­tro ti­vesse o po­der de mo­di­fi­car al­guma coisa. A mi­nha es­pe­rança está com o di­â­me­tro de um fio de ca­belo, falta pouco para se par­tir. Mas o Rio – pra não di­zer o mundo todo – me­rece dias bem me­lho­res dos que es­ses que tem vi­vido.

E-mail: anaflores.rj@terra.com.br

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