Esta his­to­ri­nha idi­ota co­me­çou quando tro­quei de carro. Na ne­go­ci­a­ção com o ven­de­dor, dei meu veí­culo ve­lho como en­trada e com­ple­tei o res­tante com mi­nhas eco­no­mias. Saí todo fe­liz da vida ao vo­lante do meu carro novo, em­bora usado. Logo de­pois pa­rei no posto para co­lo­car ga­so­lina, pois as lo­jas têm o cos­tume besta de ven­der carro com pouquís­simo com­bus­tí­vel. Apro­vei­tei para pe­dir ao fren­tista que tam­bém ve­ri­fi­casse os ní­veis de óleo e água e ca­li­brasse os pneus. Ao levantar-me para pa­gar pelo ser­viço, no­tei en­tão a placa do meu novo carro e le­vei um susto. Os nú­me­ros eram iguais aos do meu au­to­mó­vel an­te­rior, na mesma or­dem. As le­tras, não, claro. Se fosse tudo igual se­ria um clone, o que é ile­gal. Meu Deus, que coin­ci­dên­cia, pen­sei co­migo. Aque­les qua­tro nú­me­ros, ne­nhum re­pe­tido, co­me­ça­ram a mo­di­fi­car mi­nha vida. Quase todo dia apos­tava a mi­lhar no jogo do bi­cho, bem como as cen­te­nas e as de­ze­nas for­ma­das pe­los qua­tro nú­me­ros. Os dias em que não con­se­guia jo­gar fi­cava com peso de cons­ci­ên­cia: “Será que vão dar meus nú­me­ros jus­ta­mente hoje que não apos­tei?” Cada vez que pas­sava em frente a uma lo­té­rica fa­zia tam­bém apos­tas nas di­ver­sas lo­te­rias de nú­me­ros. E ainda fi­cava olhando para as lo­te­rias de bi­lhe­tes a pro­cura do meu nú­mero. A neu­rose era tão grande que às ve­zes ten­tava en­con­trar meu nú­mero em ruas e ave­ni­das lon­gas so­mente para ver que tipo de re­si­dên­cia ou co­mér­cio fun­ci­o­nava no lo­cal. Olhava tam­bém pla­cas de ou­tros car­ros como se fosse pos­sí­vel achar mais uma igual a mi­nha. Por medo ou ver­go­nha, não ou­sei con­tar a nin­guém so­bre a coin­ci­dên­cia das pla­cas, Mi­nha mu­lher e meu fi­lho nem no­ta­ram o fato. Ela, sem­pre dis­traída, e ele, muito pe­queno para en­ten­der. No en­tanto, quando saíam co­migo, eles viam algo de es­qui­sito em mim , mesmo sem sa­ber da mi­nha pa­ra­nóia com os qua­tro nú­me­ros. “O que você tanto olha nas ruas, que­rido?”, per­gun­tava ela. “Pai, o se­nhor pa­rece ner­voso”, ob­ser­vava meu fi­lho. Dor­mindo ou acor­dado, vi­via a so­nhar com os nú­me­ros. A cada dia mi­nha fi­xa­ção cres­cia. Apos­tava em tudo, pro­cu­rava pe­los nú­me­ros em todo lu­gar. Ras­cu­nhava os al­ga­ris­mos em mi­nha mesa de tra­ba­lho. Já es­tava dando na vista. Um de meus co­le­gas de tra­ba­lho di­zia: “No­va­mente, você e seus nú­me­ros. Está es­tu­dando ma­te­má­tica?” Até que ele ti­nha ra­zão. Es­tava mesmo es­tu­dando aná­lise com­bi­na­tó­ria pela in­ter­net. “Meu Deus, onde che­ga­rei com esta ma­nia?”, ques­ti­o­nava. Certo do­mingo, en­quanto al­mo­çava, for­mei os nú­me­ros no prato com fios de ma­car­rão. Ante o olhar de sur­presa de mi­nha mu­lher, des­fiz o hor­ro­roso ar­ranjo. No vi­dro em­po­ei­rado do meu carro, de­se­nhei os nú­me­ros. Na praia, es­cre­via os qua­tro na areia, como um An­chi­eta ma­luco. To­das as mi­nhas se­nhas, de banco, in­ter­net, com­pu­ta­dor e ou­tras, eram for­ma­das pe­los al­ga­ris­mos, mesmo quando ti­nha mais de qua­tro. Pen­sei em tro­car no­va­mente de carro para me li­vrar da mal­di­ção dos nú­me­ros. Mas se tro­casse se­ria por ou­tro mais ve­lho, pois não ti­nha mais eco­no­mias, pois todo di­nheiro que so­brava ia nas in­ter­mi­ná­veis apos­tas. E não ga­nhava nada. Mi­nha su­pers­ti­ção nos nú­me­ros era um fra­casso to­tal, uma to­lice sem igual. Po­rém, não ti­nha for­ças psi­co­ló­gi­cas para rom­per de­fi­ni­ti­va­mente com aquela praga. Num do­mingo pela ma­nhã, quando vol­tava so­zi­nho da casa de mi­nha mãe, pe­guei in­ten­ci­o­nal­mente um ca­mi­nho di­fe­rente, por uma ave­nida longa. Iria ro­dar muito mais, gas­tar mais ga­so­lina, so­mente para pro­cu­rar meu nú­mero na­quela ave­nida. E en­con­trei. Era um bo­teco. Pa­rei em frente e apro­vei­tei para to­mar uma ca­chaça, no in­tuito de abrir o ape­tite para o ma­car­rão de mi­nha mu­lher. De­pois que bebi a pinga, os nú­me­ros apa­re­ce­ram na mi­nha frente, dan­çando. Ora pa­re­ciam ves­ti­dos com ca­mi­sas flo­ri­das, de tu­rista ame­ri­cano no Ha­vaí, ora de ne­gro ou de branco, como pais-de-santo. Os qua­tro can­ta­vam e zom­ba­vam da mi­nha cara. Senti-me um idi­ota com­pleto. Ner­voso, ba­lan­cei a ca­beça, es­pan­tei os en­gra­ça­di­nhos e vol­tei para casa, com uma ideia re­so­luta. Te­ria de rom­per to­tal­mente com aque­les al­ga­ris­mos in­gra­tos. Tanto fiz por eles, usei-os em tudo, fiz de­les a ra­zão da mi­nha vida e em troca de tanta con­si­de­ra­ção me apron­tam este pa­pe­lão? Reduzem-me a nada. “Chega. Chega. Basta. Já me can­sei de ser es­cravo de vo­cês”, gri­tei bem alto, den­tro do carro. Era no­va­mente um ho­mem li­vre. No dia se­guinte, segunda-feira, pen­sei mais uma vez so­bre o rom­pi­mento de­fi­ni­tivo com meus qua­tro ex-amigos e achei que se­ria de bom al­vi­tre dar mais uma chance a eles. Fa­ria uma só aposta, com a mi­lhar, no jogo do bi­cho. Se per­desse, como era de se es­pe­rar, te­ria a prova de­fi­ni­tiva que aque­les qua­tro só me tra­ziam azar, re­al­mente. De­pois, tro­ca­ria de carro, mesmo por um mais ve­lho, mu­da­ria mi­nhas se­nhas, pa­ra­ria de apos­tar. En­fim, es­que­ce­ria de­fi­ni­ti­va­mente aque­les im­be­cis. E não é que a mi­nha mi­lhar deu no pri­meiro prê­mio do bi­cho? Ga­nhei um di­nheiro ra­zoá­vel, o su­fi­ci­ente para tro­car de carro e pe­gar ou­tro mais novo. Mas con­fesso abes­ta­lhado que es­tou em dú­vida. Não sei se rompo com meus nú­me­ros. A não ser que eu en­con­tre ou­tro carro com os mes­mos, no­va­mente.

E-mail: otanunes@gmail.com

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