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DNA de consumidor

quarta-feira, 26 de novembro de 2008 Texto de

Cada vez te­nho mais cer­teza de que um có­digo de barra apa­rece na testa dos ci­da­dãos bra­si­lei­ros no mo­mento em que eles se en­con­tram na po­si­ção de con­su­mi­do­res. Não im­porta se é um em­pre­sá­rio bem-sucedido, uma co­zi­nheira de mão cheia, um pai ad­mi­rado pe­los fi­lhos ou uma com­po­si­tora de ta­lento, to­dos re­co­nhe­ci­dos em seu meio. O fato é que quando vão com­prar um carro, en­cer­rar uma conta ban­cá­ria, fe­char um pa­cote de vi­a­gem, fa­zer uma as­si­na­tura de TV a cabo, en­trar num su­per­mer­cado, ad­qui­rir tí­que­tes para um show ou uma par­tida de fu­te­bol, pa­rece que al­guma coisa muda no seu DNA, no seu rosto, no seu ges­tual, que logo os pi­lan­tras de plan­tão fa­re­jam mais um otá­rio a ser en­go­lido, co­zi­di­nho e bem tem­pe­rado.

Perde-se a conta de epi­só­dios em que pes­soas de qual­quer classe, idade ou gê­nero são en­ga­be­la­das, por mi­nuto, neste país. Epi­só­dios às ve­zes ina­cre­di­tá­veis a olhos e ou­vi­dos es­tran­gei­ros, quando es­tes mes­mos não aca­bam en­trando nas jo­ga­das, pela fa­ci­li­dade en­con­trada por aqui, tão di­fe­rente das leis rí­gi­das de seus paí­ses de ori­gem. Mas o grosso mesmo está nos nas­ci­dos em ter­ras bra­si­lei­ras, afi­nal nisso tam­bém so­mos cam­peões mun­di­ais, ulalá.

Cam­bis­tas, pro­du­to­res e dis­tri­bui­do­res de pro­du­tos pi­ra­tas, ven­de­do­res bem trei­na­dos para se­du­zir o con­su­mi­dor até o mo­mento de ele fe­char o ne­gó­cio, mas fu­gindo dele quando o pro­duto com­prado não era nada da­quilo que ele ju­rou que era, seja um plano de saúde ou um ele­tro­do­més­tico; em­pre­sá­rios de má-fé ex­plí­cita para com os usuá­rios de sua mer­ca­do­ria, se­jam io­gur­tes ou apar­ta­men­tos. Se­ria can­sa­tivo en­cher lau­das e lau­das de si­tu­a­ções tão co­muns ao nosso co­ti­di­ano e ne­nhuma se­ria exa­ta­mente uma no­vi­dade para nin­guém, de tão ha­bi­tual. Le­vanta o dedo quem nunca foi pas­sado para trás numa fal­ca­trua qual­quer do dia-a-dia. Você não, baby, aca­bou de nas­cer e ainda está no ber­çá­rio. Mas es­pera só co­me­çar a con­su­mir leite de vaca e ou­tros pro­du­tos in­dus­tri­a­li­za­dos…

Há saí­das, claro, ape­sar de o bote nem sem­pre es­tar muito à vista. Olhar crí­tico ao que vê e ouve na pu­bli­ci­dade, im­per­me­a­bi­li­dade a elo­gios exa­ge­ra­dos a pro­du­tos de con­sumo, prin­ci­pal­mente se eles vêm do ven­de­dor; pronto contra-ataque di­ante de pre­juí­zos, em forma de queixa for­mal ou pro­ces­sos, que dão tra­ba­lho e cau­sam abor­re­ci­men­tos de toda na­tu­reza, mas às ve­zes fun­ci­o­nam. E, prin­ci­pal­mente, ou­vi­dos mou­cos a mo­dis­mos, do tipo da­quele, por exem­plo, que faz dois mi­lhões de pes­soas com­pra­rem ou as­sis­ti­rem a um ví­deo pi­rata só por­que “todo mundo tá vendo, ué”. A não ser que você não li­gue pro có­digo de barra no seu DNA com a ins­cri­ção “mais um otá­rio”.

E-mail: anaflores.rj@terra.com.br

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