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Desperdício humano

terça-feira, 18 de novembro de 2008 Texto de

Já fa­lei so­bre isso em ou­tra crô­nica, mas volto ao as­sunto, ainda la­men­tando o des­per­dí­cio de cri­an­ças e ado­les­cen­tes sem eira nem beira, de­sa­pro­vei­ta­dos e des­co­nhe­cendo seus pró­prios ta­len­tos que não aque­les di­ri­gi­dos a de­li­tos. Hoje me re­firo es­pe­ci­fi­ca­mente aos que são jo­ga­dos em ins­ti­tui­ções cuja fi­na­li­dade é “for­mu­lar e im­plan­tar pro­gra­mas de aten­di­mento a me­no­res em si­tu­a­ção ir­re­gu­lar, prevenindo-lhes a mar­gi­na­li­za­ção e oferecendo-lhes opor­tu­ni­da­des de pro­mo­ção so­cial” (Lei Es­ta­dual 1.534 de 27/11/1967), mas que na sua mai­o­ria não pas­sam de um de­pó­sito de se­res hu­ma­nos. Nes­tes, os in­ter­nos pas­sam grande parte de seu tempo pla­ne­jando a fuga ou es­pe­cu­lando so­bre como vão se dar bem quando fi­ze­rem 18 anos e se rein­te­gra­rem à ban­di­da­gem.

Um lu­gar com es­tru­tura se­me­lhante à de um co­lé­gio in­terno te­ria tudo para ser o lo­cal certo para uma ver­da­deira re­a­bi­li­ta­ção, com aten­di­men­tos ade­qua­dos, cur­sos bem mon­ta­dos e opor­tu­ni­da­des para que se des­cu­bram ap­ti­dões e ta­len­tos nos in­ter­nos, mas não o ta­lento da es­per­teza e da vin­gança con­tra os que os man­têm ali. Tanto nas ins­ti­tui­ções para me­ni­nos como nas de me­ni­nas, to­dos me­no­res e já in­fra­to­res, nem mesmo eles des­con­fiam que são mú­si­cos, dan­ça­ri­nos, ato­res, des­por­tis­tas, pro­fes­so­res, téc­ni­cos, es­cri­to­res e ou­tros pro­fis­si­o­nais em po­ten­cial. E é nesse po­ten­cial não des­co­berto que es­tão ao mesmo tempo o pro­blema e a so­lu­ção.

É pro­blema por­que a re­a­li­dade con­ti­nua mos­trando o lado po­dre des­sas vi­das. Por que tão ra­ra­mente se vêem ar­tis­tas e pro­fis­si­o­nais que des­co­bri­ram seus ta­len­tos nes­sas ins­ti­tui­ções, mas lê-se aos mon­tes so­bre cri­mi­no­sos e de­linqüen­tes que ti­ve­ram pas­sa­gem por elas? E é so­lu­ção por­que é esse po­ten­cial que pode ser cap­tado, tra­ba­lhado e es­ti­mu­lado pe­los edu­ca­do­res das ins­ti­tui­ções que re­al­mente qui­se­rem fa­zer um tra­ba­lho de re­cu­pe­ra­ção real com os in­ter­nos.

Os no­mes des­sas ins­ti­tui­ções já fo­ram mui­tos e sem­pre bem in­ten­ci­o­na­dos. Mudam-se as si­glas, mas mantém-se o es­tigma de es­cola do crime, de maus tra­tos, de ce­leiro de pe­que­nos ban­di­dos que agem como tais na pró­pria ins­ti­tui­ção e que um dia atin­gi­rão o ápice da car­reira mar­gi­nal. E, o que é de dar mais ver­go­nha: isso tudo de­pois de pas­sa­rem por lu­ga­res cri­a­dos e man­ti­dos jus­ta­mente para que eles pos­sam ter trei­na­mento ade­quado para se rein­te­gra­rem como ci­da­dãos à so­ci­e­dade de onde saí­ram.

No mo­mento em que tão opor­tu­na­mente se chama a aten­ção so­bre ur­gen­tes me­di­das con­tra o des­per­dí­cio de pa­pel, de co­mida e de re­cur­sos na­tu­rais do pla­neta, bem que se po­de­ria in­cluir nesse foco o des­per­dí­cio que acon­tece sob nos­sas vis­tas com ado­les­cen­tes que po­de­riam ter acesso a al­guma opor­tu­ni­dade para se tor­na­rem ci­da­dãos de bem.

E-mail: anaflores.rj@terra.com.br « vol­tar

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