Crônicas

Matança

terça-feira, 8 de julho de 2008 Texto de

As cri­an­ças são um tipo cu­ri­oso de gente. Elas são cheias de von­ta­des. Agora que­rem uma coisa. Da­qui a pouco, ou­tra. So­nham ser isso e aquilo, de­sis­tem logo, in­ven­tam ou­tros de­se­jos. Um dia, bem cri­ança ainda, mi­nha fi­lha ex­pres­sou seus pla­nos para o fu­turo: se­ria can­tora e ven­de­dora de cal­ci­nhas. In­crí­vel!

Na mi­nha in­fân­cia, eu que­ria cres­cer e ser mé­dico. Vas­cu­lhava os li­vros ilus­tra­dos com pa­ci­en­tes aber­tos ao meio e ho­mens mas­ca­ra­dos de­bru­ça­dos so­bre eles. De­pois, mu­dei de idéia. Passou-me pela ca­beça ser ma­es­tro. Logo eu: um de­sa­fi­nado, como di­zem lá em casa. 

Uma vez, e acho que foi só aquela, encorajei-me a do­mar leões. Orgulhei-me desse ím­peto. Mas hoje, ima­gine: po­bres leões. O que são eles perto de nos­sos ru­gi­dos?

Nas guer­ras – de­cla­ra­das ou ve­la­das – mos­tra­mos nossa fe­ro­ci­dade, cer­ta­mente as­sus­ta­dora a qual­quer ani­mal que a tes­te­mu­nhe.

Não há do­ma­dor que nos deixe acu­a­dos. In­sen­sa­tos, abo­ca­nha­mos o mundo. Des­tro­ça­mos a nós mes­mos.

Em re­sumo, ma­ta­mos, todo dia um pouco mais, os so­nhos de cri­an­ças, o fu­turo de cri­an­ças e, o pior, as pró­prias cri­an­ças: as de hoje e tam­bém aque­las que fo­mos um dia. 

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